Semana passada, celebramos o Dia Mundial do Emoji mostrando como esses símbolos estão próximos da tipografia. Em primeiro lugar, eles são literalmente caracteres, assim como as letras. Mas as semelhanças não param por aí e se estendem também à maneira como são projetados, em um processo que não é tão diferente do desenho de uma fonte. Se ainda não leu, não deixe de conferir a Parte 1 da nossa pesquisa sobre emojis e design.
“Where emoji meets existential crisis”. Obra da exposição “Masterpieces, emojified”, da designer Yiying Lu
Hoje, o foco sai do desenho e vai para a circulação dessas figuras no nosso dia a dia. Aliás, mais do que reconhecer a presença marcante dos emojis no cotidiano da internet, podemos pensar neles em um sentido mais amplo: será que eles realmente têm o apelo global que pretendem ter? Até que ponto podemos afirmar que representam figuras universais?
Os emojis incorporam um desejo antigo da humanidade: que exista uma língua capaz de unir todos os povos, dissolvendo barreiras de comunicação no mundo. Podemos lembrar do esperanto, língua criada pelo polonês Ludwik Lejzer Zamenhof no século XIX para servir como língua universal. Ou mesmo do mito bíblico da Torre de Babel, em que a ambição da humanidade de construir uma torre que chegasse ao céu foi punida por Deus com a criação de diferentes línguas, fazendo com que os trabalhadores não mais se entendessem.
Torre de Babel (Pieter Bruegel, 1563)
Veja como a dificuldade de se comunicar já era, há mais de dois mil anos, encarada como uma punição, como um erro que nunca deveria ter acontecido. A vontade de superar essa barreira, portanto, assume novas formas ao longo da história.
Segundo o Consórcio Unicode, 92% da população online usa emojis, cujas figuras são pensadas para ter apelo universal, como gestos básicos, expressões faciais comuns e comidas difundidas pelo mundo inteiro. Isso quer dizer, então, que conseguimos, finalmente, criar uma língua universal? Bom, sim e não.
É fato que boa parte dos símbolos representados pode ser potencialmente compreendida por públicos do mundo inteiro, mesmo por pessoas que não sabem ler. Mas ser universalmente compreendido não é o mesmo que ser universalmente representativo. Existem pelo menos dois obstáculos a essa utopia linguística, que podemos resumir nos dois momentos da vida de um emoji: a criação e o uso.
Na criação, o problema é o clássico da representatividade: é possível ou legítimo que um grupo projete a representação de outros? Isso porque, embora os emojis tenham um apelo global, sua criação é bastante restrita. Qualquer pessoa pode sugerir um novo emoji, a partir de um processo burocrático e longo, mas sua aprovação e execução sempre voltam para as mesmas empresas e para um único consórcio que os padroniza, localizado nos Estados Unidos.
Esses grupos podem fazer um esforço até louvável para alcançar uma representação universal, mas, em última instância, estarão sempre limitados às suas próprias culturas, aos seus vieses e ao tamanho reduzido das equipes envolvidas nesse trabalho.
Por exemplo, por terem surgido no Japão e se tornado, no começo dos anos 2000, uma cultura forte no país, como vimos na Parte 1, os emojis apresentam uma variedade impressionante de representações da cultura japonesa: diferentes elementos arquitetônicos, gastronômicos e históricos do país aparecem com nuances no sistema Unicode.
Outros países não têm a mesma sorte, então a própria proporção que cada cultura ocupa no conjunto global de emojis dificulta a afirmação de que eles sejam universais em absoluto.
Muitos desses emojis falam de aspectos da cultura japonesa
Voltando à iconografia de sinalização que nos guia por placas nas ruas e nos estabelecimentos, imagine este cenário: se você for a um museu no qual é proibido entrar com comida, por exemplo, é provável que esse aviso tenha um ícone de um hambúrguer ao lado de um copo com canudo e um corte sobre eles para indicar a proibição. Provavelmente, todo mundo entende esse sinal sem grande esforço, mas o que justifica que um hambúrguer com refrigerante seja a imagem universal da comida?
O mesmo acontece com os emojis: todo mundo consegue entender quase todos, mas isso não responde por que alguns estão lá e outros não, ou por que alguns temas aparecem em maior número do que outros.
Apenas em 2015 os emojis passaram a contemplar diferentes gêneros e tons de pele nas figuras de gestos e rostos humanos.
O outro empecilho à afirmação de que os emojis são uma língua universal é, na verdade, uma possibilidade muito interessante deles: a capacidade de ir além dos seus significados literais.
Ainda que o significado original de cada emoji seja muito simples e objetivo, seu uso em certas comunidades eventualmente cria novos significados. Você pode usar 💅 para falar sobre pintar as unhas, mas é mais provável que esse emoji apareça no contexto de algo cool, como uma ironia sobre algo sofisticado ou uma indiferença engraçadinha. Uma flor murcha 🥀 já não é literalmente apenas uma flor murcha, mas pode representar uma decepção ou o luto. O emoji de caveira 💀 pode expressar uma grande vergonha ou humilhação. Alguns emojis de frutas também já fazem carreira como conotações sexuais.
Enfim, a lista é grande e, principalmente, situada. Esses exemplos dizem respeito a um uso específico da internet no Brasil e podem coincidir com a cultura online de outros países, mas cada lugar e cada época terão seu glossário particular de emojis.
Isso sem falar nos casos em que, mesmo fora do ambiente da internet, certos emojis de gestos ou cores significam uma coisa em uma cultura e algo completamente diferente em outra.
Ou seja, a língua universal pode até ser um sonho bonito, mas, como toda linguagem, essa também é rebelde e se transforma a todo momento. Nunca é possível capturar o significado dos símbolos em um ponto fixo, válido para todas as pessoas e em todas as épocas.
O que deveríamos admirar nos emojis é justamente essa capacidade de se moldar à cultura local e de se integrar ao vocabulário de uma região ou comunidade, criando algo como dialetos locais de emojis, em vez de tentar forçar sobre eles um ideal de universalidade.
Nesse sentido, é interessante o trabalho da designer Yiying Lu, de origem chinesa, que conseguiu fazer com que fossem aprovados pelo Unicode emojis ligados à sua cultura, mas capazes de se conectar com um público global.
Primeiro, ela percebeu que não existia o emoji de “dumpling”, um tipo de bolinho recheado que seria algo como o nosso pastel, mas geralmente cozido ou assado. Ela sentiu falta desse emoji para usar em suas conversas e decidiu desenhá-lo por iniciativa própria. Antes, porém, pesquisou mais a fundo sobre o dumpling e percebeu que alguma versão dele existe em muitas culturas, não só na chinesa. Isso a ajudou a convencer o comitê do Unicode de que esse era um emoji relevante e, eventualmente, ele foi aprovado.
Depois disso, ela ainda conseguiu emplacar outros emojis relacionados, como a caixinha de comida chinesa para viagem, os hashis e o biscoito da sorte.
Por fim, ela também conseguiu emplacar o emoji do bubble tea 🧋.
Um exemplo oposto veio do Brasil e foi registrado pela revista piauí em 2017. Em O lobby da capivara, a repórter Paula Scarpin conta a saga das professoras Anna Levin e Nathalia de Mello na tentativa de criar o primeiro emoji brasileiro: a capivara.
Ilustração por Revista Piauí (sem indicação de crédito).
Numa conversa no WhatsApp, elas perceberam que a capivara não era um dos animais disponíveis no aplicativo. Tentaram contato com a plataforma e foram informadas de que essa não era uma decisão que cabia ao WhatsApp, mas sim ao Unicode, responsável pela aprovação dos emojis.
Além de submeter a proposta, elas também fizeram uma pesquisa sobre a popularidade da capivara e descobriram que é um animal típico de quase todos os países da América do Sul, com exceção do Chile, e que, inclusive, estampa a moeda de dois pesos no Uruguai.
Apesar do esforço, o emoji da capivara não existe até hoje.
A história é divertida, mas não deixa de ser simbólica da política dos emojis: eles dependem de convencer um consórcio norte-americano de que a sua cultura pode ser universalizada, como aconteceu com a comida chinesa, coisa que ainda não conseguimos fazer com a capivara.
Segundo o Unicode, entre os critérios para a aprovação de um novo emoji estão o número de pessoas para quem aquele emoji poderia ser relevante e a inexistência de outros emojis capazes de comunicar a mesma coisa.
Se o emoji da capivara não foi aprovado até agora, a tarefa vai ficar cada vez mais difícil. Isso porque o Unicode reduziu drasticamente a quantidade de emojis aprovados por ano. Somando os anos de 2015 e 2016, 1.531 emojis foram aprovados. Já em 2025 e 2026, foram apenas 15 no total.
A instituição mudou radicalmente sua política, antes focada na quantidade de emojis. O consórcio percebeu que um número pequeno de emojis concentra a maior parte dos usos, então não faria sentido seguir aumentando a lista exponencialmente para criar centenas de símbolos que pouca gente usa.
Hoje, o consórcio foca na qualidade e na padronização das figuras. Embora não desenhe nenhum emoji, continuamente faz recomendações às plataformas sobre cores, formas, ângulos e diferentes interpretações que o público pode ter de cada um. A ideia é que as diferenças de desenho entre as plataformas nunca sejam grandes o suficiente para mudar a leitura do público.
Segundo Jennifer Daniel, presidente do Subcomitê de Emojis do Unicode, na maioria das vezes as pessoas buscam emojis para expressar amor ou risada, enquanto os demais usos são secundários.
É nos relatórios de padronização, focados na melhoria da experiência dos usuários com emojis, que o Unicode concentra seus esforços relacionados a emojis atualmente, mais do que na aprovação de novos caracteres.
De todo jeito, fica a nossa torcida para que surja um emoji que seja ao menos minimamente brasileiro. O Brasil nunca esteve tão na moda no mundo como agora, então por que não sonhar? A capivara e o pastel, já que nenhum brasileiro se sente representado por um dumpling, são boas possibilidades. O que mais você acrescentaria à lista?
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