Uma publicação da Plau
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  • 14 de ago. de 2026

Emojis e tipografia: uma história de ❤️😍

Na primeira parte da nossa homenagem ao dia mundial do emoji, vamos conversar sobre como essas figurinhas não estão muito distantes do type design

Desde 2004, o dicionário inglês Oxford promove a eleição da “palavra do ano”, destacando algum termo que marcou culturalmente o ano que passou ou que aparece como uma tendência de forte impacto sociocultural nos anos seguintes, segundo os estudos dos lexicógrafos da publicação. Dá para dizer que eles já acertaram em cheio algumas vezes. Em 2005, por exemplo, a palavra do ano foi “podcast”, muito antes do boom de Joe Rogans, PodPahs e mesas de entrevista que vemos por todo canto.

Dez anos depois, em 2015, a palavra do ano talvez não tenha sido tão visionária, mas certamente refletiu um grande impacto cultural: a palavra eleita foi 😂. Sim, o emoji de risada foi a palavra mais relevante do ano, segundo a instituição. Podemos debater se emojis são palavras ou não, mas, se o Oxford está dizendo, fica difícil argumentar.

Outras finalistas daquele ano foram “Brexit” e “lumbersexual”, mostrando como a escolha pelo 😂 foi acertada: entre as listadas, apenas ele se mantém relevante até hoje. Segundo o Oxford, o uso da palavra “emoji” mais do que triplicou na internet em 2015 em relação aos anos anteriores.

Obra da exposição “Masterpieces, emojified”, da designer Yiying Lu

Os emojis se tornaram onipresentes na comunicação digital, mesmo para quem não é muito adepto deles em suas mensagens pessoais. Eles aparecem não só em conversas, mas também em posts de grandes marcas, anúncios, reações em redes sociais, comunicados, respostas automáticas e até nos textos de IAs generativas.

Os emojis também têm suas próprias modas e uma etiqueta particular. É por isso que até mesmo não usar emojis é uma escolha: significa abrir mão de um tom que só eles podem dar a uma mensagem e que talvez seja esperado em algumas situações. Goste ou não, é impossível escapar deles.

O Dia Mundial do Emoji aconteceu algumas semanas atrás, e estamos aqui para homenagear esse pilar da comunicação contemporânea.

A pré-história dos 😂👌

Sabemos que emojis são importantes na comunicação atual, mas de onde vêm essas figurinhas?

É até difícil traçar o que faz parte ou não da história dos emojis. Afinal, se os considerarmos como uma forma de comunicação pictográfica, o fio pode ser puxado até a Mesopotâmia e os primeiros sistemas de escrita da humanidade, que utilizavam caracteres figurativos.

Mesmo as manículas medievais, os sistemas de sinalização por pictogramas e as fontes dingbats não estão tão distantes assim do conceito de emoji.

Os tataravós dos emojis vieram da Idade Média?

Zapf Dingbats, fonte desenhada por Hermann Zapf (1978)

Porém, com esse nome e já pensados para aplicação digital, os emojis surgem em 1999, no Japão. A empresa de telecomunicações NTT DOCOMO desenvolveu um conjunto de 176 emojis para celulares e pagers. Construídos em um grid de 12 por 12 pixels pelo designer Shigetaka Kurita, eles representavam, entre outras coisas, expressões faciais, esportes, meios de transporte, fenômenos meteorológicos e até fases da Lua.

Os primeiros emojis da história, desenhados por Shigetaka Kurita para a NTT DOCOMO (Acervo do MoMA).

Os emojis de Kurita são tão icônicos que foram adquiridos pelo MoMA e hoje fazem parte do acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York.

Nessa linha do tempo também cabem os emoticons, é claro, que ainda fazem parte da linguagem da internet, embora tenham perdido força ao longo dos anos ¯\_(ツ)_/¯. Os rostinhos feitos de parênteses, letras e sinais de pontuação já circulavam na internet desde os seus primórdios, nos anos 1990.

A diferença entre os emoticons e os emojis é que os primeiros não são símbolos individuais, mas combinações de caracteres montadas pelo próprio usuário no teclado.

A iniciativa da NTT DOCOMO fez com que outras empresas japonesas seguissem o exemplo e criassem seus próprios conjuntos de emojis, contribuindo para a consolidação de uma cultura de uso desses caracteres no Japão.

Em 2007, o Google apresentou uma proposta para que o Consórcio Unicode padronizasse o sistema de emojis, a partir de um conjunto de 625 caracteres.

O Unicode é o padrão responsável por codificar caracteres de diferentes sistemas de escrita para que possam ser representados de maneira consistente em diferentes dispositivos e plataformas. Basicamente, ele garante que cada caractere seja identificado por um código universal, independentemente da fonte, do sistema operacional ou do aparelho utilizado. Em 2010, os emojis passaram a fazer parte desse sistema.

Unicode, 2015.

Emoji ❤️ Tipografia

Bem que a palavra “emoji” poderia ter algum significado relacionado a “emoção” ou algo parecido, já que eles servem exatamente para transmitir emoções via texto. O mesmo valeria para os emoticons que citamos anteriormente.

Mas não é nada disso. E que bom para nós (você já vai entender em breve). A palavra junta dois significados: “e” e “moji”, do japonês, que significam, respectivamente, imagem e caractere.

Ou seja, desde sua origem, os emojis podem ser entendidos quase como um tipo de letra. E é mais ou menos isso que eles são mesmo. Emoji também é tipografia.

Em primeiro lugar, eles de fato fazem parte das fontes dos sistemas digitais, além de serem organizados pelo mesmo tipo de padronização. Ou seja, habitam os mesmos ambientes e softwares que as letras.

Por isso, para conviver ao lado das letras nos textos, seu design precisa considerar questões de proporção e espaçamento, por exemplo, para que esse encontro seja harmônico.

Esses fatores já mostram como emojis e letras estão mais próximos do que a gente imagina. Mas, além disso tudo, também dá para dizer que o desenho de emojis tem tudo a ver com type design.

Assim como a tipografia, o emoji também é uma linguagem baseada em sistemas. Sabe aquela frase do Matthew Carter de que uma fonte não é um conjunto de belas letras, e sim um belo conjunto de letras? O mesmo pode ser dito sobre um conjunto de emojis.

A Motiva Sans, fonte do catálogo da Plau, recebeu, em 2013, uma atualização com um conjunto de emojis para integrar todas as interfaces da Valve, produtora da plataforma Steam (Designer: Rodrigo Saiani)

Eles precisam, antes de tudo, de consistência interna. Isso inclui coesão de tamanho, cor, arredondamento, sombra, ângulo, profundidade, nível de detalhamento, legibilidade em tamanhos pequenos e assim por diante.

Embora cada área tenha suas particularidades, essas preocupações não estão muito distantes daquelas que fazem parte da vida de um type designer. Antes mesmo da legibilidade, uma das principais preocupações no desenho de uma fonte, e parte do que faz dela um sistema, é a capacidade de convencer o leitor de que símbolos diferentes fazem parte de um mesmo grupo.

Os emojis também precisam transmitir a ideia de um conjunto coeso, sem que um elemento salte aos olhos muito mais do que os outros.

Para observar isso na prática, basta comparar um mesmo emoji em diferentes sistemas. Os emojis mudam entre os sistemas da Apple, Google, Samsung ou Microsoft, por exemplo.

Desenhos diferentes podem expressar ideias diferentes, ainda que partam de um mesmo significado.

Assim como a tipografia, eles simulam um tom de voz via texto, e esse tom muda quando o desenho muda.

No caso dos emojis, essa tradução pode gerar problemas até maiores do que no caso das letras, porque cada variação de traço ou dos elementos usados para representar determinado significado pode gerar grandes diferenças de interpretação.

Por exemplo, vejamos diferentes emojis de ímã:

Esse símbolo foi citado por Jennifer Daniel, presidente do Subcomitê de Emojis do Unicode, como um caso particularmente problemático para padronização.

Primeiro, porque muitos dos desenhos não passam a impressão de estar atraindo algo, que seria justamente o principal uso desse emoji. Os usuários, segundo os estudos do Unicode, querem usá-lo ao lado de outros emojis para transmitir a ideia de que um objeto está sendo puxado, então essa ação precisa estar muito clara.

Em segundo lugar, alguns desenhos lembram uma letra, a depender do ângulo. Podem parecer um “C”, um “D” ou até um “N”. E qualquer possibilidade de má interpretação pode fazer com que os usuários abandonem um emoji.

Nesse caso, a semelhança com a tipografia é até literal, com o emoji podendo ser confundido com diferentes letras. Mas mais importante que isso são os tipos de ajustes e o olhar sistêmico que fazem com que a tarefa de desenhar emojis tenta tantas analogias com o desenho de fontes.

Emojis são um assunto tão amplo que resolvemos dividir este texto em duas partes. Na Parte 2, falaremos sobre as possibilidades e os limites de considerar os emojis uma linguagem universal e globalmente representativa.

Fontes utilizadas nessa página
  • Vinila Regular
  • Guanabara Display Condensed
  • Dupincel S Regular
  • Odisseia Regular
Artigo escrito por

Valter Costa

Valter Costa é pesquisador e designer. Ele dirige 
o conteúdo da Plau, sendo o responsável principal por todas as entregas que envolvam a produção de textos no estúdio. Se dedica especialmente ao Entrelinha, publicação de conteúdo da Plau, para 
o qual escreve semanalmente.