Uma publicação da Plau
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  • 16 de out. de 2024

Playlist tipográfica #1: Fontes que nos inspiram

Descubra as fontes que mexem com o coração da equipe da Plau!

Hoje estamos inaugurando um novo tipo de post, as playlists tipográficas. Nelas, vamos indicar fontes que gostamos, que compartilham características interessantes ou que achamos que servem bem para um propósito específico.

Para começar, trazemos tipografias pelas quais cada um de nós, na equipe da Plau, nutre um carinho. Não quer dizer, necessariamente, que são nossas fontes favoritas da vida, mas são aquelas que achamos que têm um je ne sais quoi que vale a pena comentar.

Rodrigo Saiani: designer gráfico, type designer e fundador da Plau

FF Balance (Evert Bloemsma, FontFont)

Como conheci essa fonte

Projeto da Pentagram para o Noguchi Museum.

FF Balance em uso

O que me fez pirar nela

Contraste invertido e NENHUMA linha reta (que depois vi em projetos como a Ideal Sans da Hoefler, que também inspirou meu projeto para a Stone, a Sharon). Além disso, o “S” com balanço invertido, parte debaixo menor que a de cima e espinha fina (que depois pudemos ver em fontes como a Beatrice).

A FF Balance é uma fonte f*da. Desenhada por Evert Bloemsma, ela tem uma proposta muito ousada, que é ser uma fonte de contraste invertido para texto. Ela não tem linhas retas e o desenho das letras parece ter sido feito de chiclete, de tão cremosa. É o wabi-sabi das fontes, na minha opinião. É uma fonte que está sempre na minha memória, influenciando muito meu jeito de desenhar letras. Vale muito conhecer as outras fontes do Evert, que, apesar de uma morte precoce, foi prolífico e extremamente criativo no seu jeito de trabalhar.

Aline Caruso: designer gráfica

Eu gosto muito da Burbank. Acho uma fonte bonita e muito simpática, sem ser exibida!  A leitura dela é confortável, tem vários pesos, brilha nos títulos e consegue passar confiança nos textos.

A Burbank é cria da House Industries e só isso já é motivo de sobra para dar uma olhada mais a fundo essa fofura. E, para completar, na época que compramos a fonte ela veio com uma camiseta lindona em uma embalagem incrível.

Valter Costa

Valter Costa: designer gráfico, pesquisador e redator

Eu comecei a me interessar por tipografia no ano de 2016, mas foi em 2017 que o interesse virou obsessão. Uma das coisas que contribuiu para essa mudança foi o edição do DiaTipo RJ em abril daquele ano – e que até hoje segue como a única edição do DiaTipo (maior evento de tipografia do Brasil) no Rio de Janeiro. 

Um dos convidados foi o Alejandro Lo Celso, type designer e fundador da Pampa Type, uma foundry tipográfica argentina. Imediatamente, me tornei um dois maiores fãs da Pampa Type (o que segue sendo verdade ainda em 2024). 

O trabalho deles foi uma das descobertas que me fez abrir a cabeça para a quantidade infinita de possibilidades para o trabalho com tipografia. As fontes da Pampa Type parecem esculpidas à perfeição, e no tempo delas, ainda que isso signifique que cada uma leve anos de desenvolvimento e se reflita em uma biblioteca de fontes não tão numerosa quanto poderia ser. 

Também sempre me identifiquei com o fato de que as fontes deles são muito inspiradas pelo universo da literatura, como a fonte “Borges”, em homenagem ao autor argentino Jorge Luis Borges. Eu sou fissurado por livros, então encontrar uma galera que também divide o coração entre livros e fontes me dizia que também haveria um lugar para mim nesse meio. 

De todas, a Amster é a minha favorita. Ela empurra os limites do quanto uma fonte de texto pode ter de personalidade. Ela é cortante, mas muito delicada ao mesmo tempo. Parece vinda diretamente de um livro medieval e, de algum jeito, também bem contemporânea. Ainda é cheia de tesouros escondidos, como algumas ligaduras. Por exemplo, as letras “D” e “E” maiúsculas formam um único glifo.

Na Amster, “D” e “E” formam um monograma

Mas o mais impressionante mesmo é a Amster Versal Iluminada, uma versão da fonte que traz todas as letras maiúsculas com ilustrações que interagem com as letras. As versais ou capitulares iluminadas eram um hábito da produção de livros na Idade Média, especialmente manuscrita, quando a letra inicial de um capítulo, seção ou parágrafo poderia vir acompanhada de uma ilustração que contava uma parte da história ou decorava a página com ornamentos.

Com o surgimento da tipografia, que mecaniza a escrita, esse hábito logo vai morrendo, afinal, quem seria maluco o suficiente para planejar um sistema de letras, que é feito para funcionar em qualquer situação, já com ilustrações pré-embutidas? Bom, o Francisco Gálvez foi!

Mariana Navarro: Designer gráfica, artista de lettering e calígrafa

Swear (James Edmondson, OHno Type Co.)

A expressividade presente nas fontes da OHno sempre chamou a minha atenção e estão constantemente aparecendo nos moodboards de inspiração para o meu trabalho. A Swear conta com um total de 72 estilos e uma versatilidade de dar inveja.

Imagem: Fonts in Use

Três aspectos acerca dela não me deixaram outra escolha, a não ser selecioná-la para essa playlist: o primeiro é, sem dúvida, a forte influência da caligrafia feita com pincel chato sobre as formas, especialmente nas romanas. O segundo são as serifas super afiadas e predominantes, que gritam para o meu lado rock'n'roll sim! E o terceiro é a adição de versões com contraste invertido, batizada de “Cilati”, pra garantir o tom daquele humor descompromissado que faz parte da identidade da foundry.

Carlos Mignot: designer gráfico, type designer e sócio da Plau

A Grilli Type é uma fundição suíça conhecida por criar não apenas fontes, mas fontes que são verdadeiras aulas de tipografia por si só. E a Sectra, uma das mais belas serifadas do seu catálogo, não poderia ser diferente. O seu artigo de processo de criação é uma das masterclass tipográficas mais legais que se pode encontrar na internet. Sabe aquela frase que diz “aprenda todas as regras antes de querer quebrá-las”? É exatamente isso que acontece com a Sectra.

Digo isso porque vejo nessa fonte uma grande mistura de vertentes tipográficas que, supreendentemente, combina muito bem. A uma primeira vista, ela parece com uma fonte serifada clássica como a Times New Roman. Mas sua generosa altura de x e suas proporções ligeiramente mais homogêneas entre as letras trazem características mais contemporâneas, geralmente presentes em fontes grotescas. Isso tudo sem falar do que mais me chama atenção nela: a presença caligráfica super marcante e expressiva, que dão o tom visual pra toda fonte. Segundo seus autores (Dominik Huber, Marc Kappeler, Noël Leu), uma inspiração direta veio das pinceladas góticas: “Uma das primeiras inspirações visuais para Sectra foi a blackletter. Muitas das características de design que tornam o desenho ousado foram incorporadas ao design da fonte.”

Outro recurso importante da Sectra é seu eixo de variação optical size, que oferece diferentes versões em Display e Text para a fonte. Isso significa que, na versão display, feita para ser usada grande, os detalhes da fonte são finos, delicados e sofisticados. Enquanto na versão Text, todos esses detalhes ganham mais volume e o contraste entre as espessuras das hastes é diminuído para que a fonte entregue alta qualidade de leitura mesmo em tamanho bem pequenos.

O jeito que a Grilli Type apresenta todos esses conceitos tipográficos é incrivelmente claro e inspirador. E foi partindo dessa inspiração que usamos a Sectra no projeto que fizemos na Plau para a cervejaria Backbone. Seu estilo incisivo, mas de proporções contemporâneas, instantaneamente chamou nossa atenção e a fonte caiu como uma luva para a identidade visual da marca. Todo o rótulo leva a Sectra e partimos dela para criar uma versão sem serifas, mas cheia de contraste e personalidade, para o logotipo da cervejaria.

Fontes utilizadas nessa página
  • Vinila Regular
  • Guanabara Display Condensed
  • Dupincel S Regular
  • Odisseia Regular
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