Valter Costa

Muitas vezes, os designers se imaginam como o tipo de profissional que nunca desliga. Mesmo fora do trabalho, você continua com o “radarzinho” de design ligado a todo momento. Talvez você já tenha ouvido, em algum curso de design, “alertas” desse tipo: “depois de aprender sobre esse aspecto do design, você vai começar a reparar nele em todo lugar que for”; “é impossível desver”; “você nunca vai descansar olhando o kerning de todo os logotipos na rua”.
Ainda assim, mesmo o designer mais atento e mais ativo 24 horas por dia deixa algumas coisas passarem. O design é tão onipresente nas nossas vidas, que é impossível reparar conscientemente em tudo que ele constrói.
Por exemplo, aqui na Plau, nós trabalhamos desenhando fontes. Isso significa que passamos o dia pensando sobre letras, seja criando elas, criticando ou admirando tipografias que vemos na internet, na TV, no cinema ou na rua. E mesmo nós deixamos muita coisa passar. Nossos olhos às vezes descansam sim — até para não colocarmos em risco nossa sanidade!
De todas as peças de design (especialmente, entre as tipográficas) uma das mais fáceis de ignorar provavelmente são as legendas. Essas mesmas que você está imaginando: textos que transcrevem (ou descrevem) falas em peças audiovisuais.
Tudo bem, nós notamos nelas quando elas atrapalham, mas, de maneira geral, não importa muito se a legenda é composta com Arial, Helvetica, Montserrat ou qualquer outra fonte com uma legibilidade confortável; se ela é amarela ou branca; se ela é um ponto maior ou um ponto menor. Não faz diferença. Se a legenda funciona, tudo ótimo. Certo?
…ou não? E se não fosse desse jeito?
Estaríamos vivendo em um mundo em que até as inofensivas legendas começam a tirar o descanso dos designers?
Bom, nós vamos falar aqui de um tipo específico de legendas, pelo menos a princípio. Por enquanto, vamos deixar quieta as legendas “tradicionais” de filmes e séries, por exemplo.
A dinâmica das redes sociais baseadas em vídeo fez surgir um novo tipo de legenda, ou criaram uma nova função para elas. Para o formato de vídeos curtos e verticais, como no TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts, a lógica é que, para ganhar relevância, é preciso disparar uma canhão de gatilhos de retenção.
Image: Instagram
Os gatilhos podem ser de roteiro, de atuação, de edição, de cenário, de temática e também de design. No meio de tantas possibilidades, os criadores de conteúdo perceberam que as legendas são aliadas importantes na tentativa de prender a atenção da audiência, além de funcionarem também como um veículo do próprio conteúdo do vídeo.
Assim, surgem legendas com fontes display, com contornos enormes, coloridas, animadas e com movimento. Ok, esse tipo de legenda que estamos comentando pode até não ser um exemplo de primor tipográfico, mas são um fenômeno que não podemos ignorar.
Como designers envolvidos com tipografia, nós podemos escolher basicamente dois caminhos diante desse fenômeno:
Para o propósito deste texto, vamos seguir a rota número 2 (embora a 1 também seja bastante válida, afinal, é verdade que o pessoal comete algumas atrocidades por aí que são difíceis de engolir).
Escolhendo o caminho 2, vamos pensar o seguinte: a tipografia faz parte do jogo das redes, do jogo da atenção — que nem sempre são jogos muito nobres; será que é possível “corromper” essas lógicas para fazer um trabalho tipograficamente interessante e que não seja focado apenas na retenção pela retenção?
Em primeiro lugar, legendas são um recurso muito importante de acessibilidade para pessoas com deficiência auditiva, então, criativas ou não, o ideal é que elas sempre sejam adicionadas a vídeos falados ou narrados.
Em segundo lugar, os feeds dessas redes privilegiam a reprodução de vídeos sem áudio, seja porque os vídeos são reproduzidos automaticamente quando aparecem na tela (e aí é mais fácil simplesmente seguir o fluxo do áudio desligado do que se dar ao trabalho de ativar ele) ou porque as pessoas assistem os vídeos em público.
(Tentamos encontrar uma pesquisa confiável sobre a porcentagem de vídeos reproduzidos no mudo nessas redes, mas cada uma usa números muito diferentes entre si e sem nenhuma ligação oficial com as redes, então vamos ficar no abstrato mesmo — de todo jeito, é certo que é um número grande.)
Ou seja, se a pessoa está scrollando o feed sem ouvir nada, a legenda pode ser o fator decisivo entre assistir ou ignorar um vídeo. E aí é que surge a necessidade de elas ficarem mais cativantes para transmitir o conteúdo.
No final das contas, a legenda, para muitos vídeos, se tornou uma parte integral do próprio conteúdo. Ela não transcreve o vídeo, ela é o vídeo.
Você com certeza já assistiu (e não só uma vez) vídeos com legendas brilhosas, saltitantes e, o pior de tudo, sem acentos. Não é raro passar um tempo no Instagram ou TikTok e ver vários e vários vídeos cuja legenda é feita com uma fonte, mas as letras acentuadas aparecem em uma fonte completamente diferente.
Isso acontece quando a fonte escolhida não possui acentos no seu set de caracteres e aí, nesses casos, o sistema ativa uma fonte padrão, como a Myriad ou Arial. Basicamente, é um erro de amador e costuma ser um problema comum com fontes gratuitas (quem nunca baixou uma fonte sem acento no Dafont que atire a primeira pedra).
O crime das fontes sem acentos acontecendo bem diante dos nossos olhos.
É muito tentador culpar os criadores de conteúdo por esse tipo de erro grosseiro ou qualquer tipo de “mau gosto” nas escolhas tipográficas dos vídeos, mas será que seria justo fazer isso?
Os criadores atuam basicamente dentro do espaço definido pelas plataformas, essas sim com poder de decidir quais ferramentas estarão ou não disponíveis para criação dentro dos aplicativos.
É fato que é possível fazer uma edição de vídeo profissional fora de qualquer plataforma e apenas fazer o upload nas redes, mas arriscamos dizer que esse tipo de trabalho responde por apenas uma fatia pequena dos vídeos que são publicados todos os dias nas plataformas.
Até porque mesmo algumas ferramentas de edição acabam se tornando, elas mesmas, plataformas. É o caso do CapCut, um editor de vídeo muito popular na criação para redes sociais. O CapCut oferece uma infinidade de soluções gratuitas para criadores de conteúdo, com alguns recursos até mais parrudos dos que os editores nativos das redes sociais, como sua própria inteligência artificial generativa.
Mas começamos esta seção do texto falando em vilões e…bom, o CapCut vai precisar comparecer ao tribunal da tipografia para prestar algumas explicações.
Embora seja uma ferramenta gratuita a princípio, o CapCut também tem uma versão paga, naturalmente. E uma das funcionalidades restritas aos assinantes é justamente a legenda animada. O editor tem uma série de presets com diversos estilos de legenda animada. Letras em fade in, fade out, letras vibrando, empilhando, com uma cor ou outra.
Menu de legendas animadas do CapCut
A variedade é grande. O problema é: as fontes dessas animações não possuem — isso mesmo — acentos. Uma funcionalidade “premium” do editor mais famoso de vídeos para redes sociais e a oferta é de fontes que não possuem nem o básico.
Animações que realçam a palavra que está sendo falada no momento estão entre as mais comuns (e, novamente, falta de acentos).
Provavelmente, isso não é um grande problema para criadores de conteúdo em inglês, mas para o português isso é um problemaço, já que os acentos são incontornáveis (além da cedilha, também não disponível nessas fontes).
Agora imagina que você é um criador de conteúdo que paga por uma ferramenta de edição de vídeo para resolver sua vida. Se você já confiou nela até ali, não é um acento faltando na legenda que vai te impedir de seguir com ela.
Por isso que a questão não é de “mau gosto”. Se os próprios apps não se preocuparem com boa tipografia, não são os usuários que vão. Em defesa do CapCut, ele possui a ótima funcionalidade de permitir o upload de fontes próprias, o que é excelente. Mas mais importante do que isso é que as fontes nativas já sejam de qualidade, porque são elas que a grande maioria dos usuários vai acessar.
Isso não significa que o CapCut seja responsável por todas as legendas feias do mundo, mas certamente ele abocanha uma porção generosa desse mercado.
A gente sabe que o que começa como uma limitação técnica (o tratamento pouco primoroso tipograficamente das legendas de vídeos, digamos assim) pode acabar se tornando uma linguagem também. Então o que era uma restrição passa a ser uma possibilidade.
Traduzindo: as fontes sem acento e animações duvidosas dão aos vídeos um ar de “precariedade” que pode até ser desejado para a criação de conteúdo.
Essa precariedade vira sinônimo de informalidade, e a informalidade, por sua vez, transmite proximidade — que, por acaso, é tudo que os criadores desejam alcançar nas redes. Quanto mais próximo o público se sentir do criador, maior a chance de interagir com ele e de perceber aquele conteúdo como relevante.
Ou seja, o tratamento amador de design também é um recurso, e pode ser aplicado de forma intencional.
Se olharmos apenas para as ferramentas nativas das redes sociais, desconsiderando apps de terceiros — como o CapCut e outras ferramentas de edição — o cenário não é tão ruim.
No TikTok, a seleção de fontes é bem pouco inspirada, especialmente no caso das fontes display. Já as fontes mais neutras do catálogo funcionam bem. Além do mais, a ferramenta deles de transcrição automática do vídeo é tão boa (e veio tão antes da ferramenta do Instagram, inclusive), que eles levam uma colher de chá nessa.
Já o Instagram parece ter uma preocupação maior com a tipografia. A seleção de fontes lá é bem interessante e muito proprietária da plataforma, o que acaba sendo um ótimo recurso para se diferenciar das redes rivais. Só de bater o olho, dá para reconhecer um layout feito no Instagram.
O catálogo de fontes disponíveis para os usuários do Instagram foi atualizado recentemente.
Sempre tem a galera dos entendidos de design para dizer que as fontes do Instagram são horríveis e isso e aquilo, mas essa conversa soa mais como um purismo barato do que um interesse real na questão.
É possível fazer composições sofisticadas para qualquer vídeo curto, reter a atenção das pessoas e usar poucos recursos para isso. Se você é ou planeja ser criador de conteúdo, vamos te passar nosso manual tipográfico para boas legendas.
Mesmo uma fonte simples colocada no lugar e tamanho certos já consegue fazer o vídeo brilhar.
Mapeie a tela:
Um vídeo com pouca movimentação e sem falas pode ter na legenda sua grande protagonista. Uma composição bem feita e que integre bem fundo e texto automaticamente eleva a qualidade visual do vídeo.
Valter Costa