
Pensar no futuro da tipografia não é apenas imaginar novos desenhos, novas ferramentas de criação, estilos futuristas ou aplicações tecnológicas que podem surgir nos próximos anos. Tudo isso faz parte da discussão, mas tão importante quanto é prestar atenção aos modelos de distribuição e de negócio que fazem as fontes circularem.
Neste ano, já participamos de diversas conferências, congressos e workshops, dentro e fora do Brasil, conversando com pessoas que vêm refletindo sobre os mais diversos aspectos do mercado tipográfico. A partir dessas conversas, algumas ideias começaram a ganhar força na nossa cabeça sobre possíveis mudanças pelas quais o mercado pode passar em breve. Reunimos aqui algumas delas: tendências que podem acontecer, ou que talvez já estejam começando a acontecer.
O impacto mais conhecido das inteligências artificiais no design é sua capacidade de gerar layouts e logotipos prontos, alimentando o receio de que possam substituir designers que, até pouco tempo atrás, executariam essas mesmas tarefas.
No entanto, quando pensamos especificamente em tipografia, as IAs parecem produzir efeitos talvez ainda mais profundos. Elas conseguem gerar fontes? Sim. Mas o impacto das fontes geradas por IA talvez ainda seja pequeno diante de outra função que esses sistemas desempenham com muito mais eficiência: recomendar fontes.
Quando um usuário pede uma recomendação tipográfica a um modelo de linguagem, a maior probabilidade é que receba sugestões de fontes gratuitas. Afinal, elas acumulam mais downloads, mais visualizações, mais comentários, ocupam uma parcela muito maior dos dados que alimentam esses sistemas e são mais fáceis de sugerir e usar graças ao modelo de licenciamento gratuito. Além disso, é provável que sejam justamente as fontes mais procuradas pelos próprios usuários.
O resultado é uma concentração crescente da atenção em torno das mesmas famílias tipográficas. Poucas fontes passam a receber uma parcela cada vez maior da visibilidade. O apelo das fontes gratuitas não é novidade e dificilmente desaparecerá. A questão é outra: como fazer com que as fontes comerciais também participem dessa conversa?
Distribuidoras e fundidoras precisam treinar essas LLMs para garantir que seus catálogos possam aparecer nas recomendações.
Hoje, as foundries tipográficas parecem lidar com dois interesses difíceis de conciliar. O primeiro é simplificar as licenças, reduzindo a barreira de entrada para usuários que querem comprar fontes sem complicação. O segundo é fazer com que essas mesmas fontes sejam remuneradas de forma proporcional ao valor que geram. Como equilibrar essas duas coisas?
Modelos simplificados podem atrair designers e empresas que não querem se preocupar com limites de uso ou prazos de validade. Ao mesmo tempo, justamente por serem mais permissivos, tendem a favorecer mais o comprador do que o criador da fonte.
No modelo mais comum hoje, por exemplo, a licença é perpétua: o usuário compra a fonte uma vez e mantém o arquivo para sempre. Em muitos casos, a precificação é baseada no tamanho da empresa no momento da compra (inclusive aqui na Plau). O problema é que esse modelo não acompanha o crescimento do cliente, que pode expandir significativamente sua operação enquanto continua utilizando a mesma licença.
Isso fica mais claro no caso de startups: como precificar licenças para empresas podem se expandir exponencialmente em pouco tempo? Idealmente, a licença cresceria junto da empresa.
Outras possibilidades começam a surgir. Assinaturas com renovação periódica, modelos baseados em consumo ou até remuneração vinculada aos resultados obtidos pelo cliente são algumas delas, embora todas exijam uma infraestrutura tecnológica muito mais sofisticada. Algumas plataformas trabalham com sistemas de tokens, nos quais o usuário compra um determinado número de usos ou um período de utilização. Seria esse um caminho também para a distribuição de fontes?
Nenhum desses modelos resolve todos os problemas. Cobrar pelo valor gerado por uma fonte pode parecer mais justo para quem a desenha, mas também pode tornar a compra menos atraente e incentivar parte dos usuários a recorrer, mais uma vez, às tipografias gratuitas.
A cada época, a tipografia funciona de uma maneira diferente. Pense nos antigos tipos móveis: peças de metal ou madeira empilhadas nas gavetas de uma oficina gráfica. Ali, a tipografia era um inventário, um conjunto de ativos físicos que podiam ser acessados sempre que necessário.
Com a tipografia digital, as fontes transformaram-se em software. Técnica e juridicamente, elas passaram a se comportar de maneira muito semelhante a qualquer outro programa instalado em um computador.
Agora, a tipografia parece caminhar para um novo modelo: o de serviço contínuo. Não é uma transformação exclusiva do nosso mercado. Basta pensar no modelo SaaS (Software as a Service), na migração da música para o streaming ou dos arquivos para a nuvem.
Talvez a tipografia esteja seguindo um caminho semelhante. Licenciamento, distribuição entre equipes, integração com softwares, conformidade jurídica e controle de uso deixam de ser preocupações periféricas e passam a fazer parte da própria experiência de uso das fontes.
Nesse cenário, o valor de um projeto tipográfico deixa de estar apenas no desenho das letras. Passa também pela infraestrutura que permite que elas circulem de forma consistente, segura e integrada aos fluxos de trabalho de empresas e marcas.
Se, por um lado, as inteligências artificiais podem pressionar o mercado de design ao tornar certos tipos de produção mais baratos e abundantes, por outro, elas também criam espaço para o movimento inverso. Quando rapidez, volume e facilidade passam a ser commodities, aquilo que é raro ganha valor.
Em outras palavras, projetos tipográficos refinados, exclusivos e desenvolvidos com profundidade para responder às necessidades de uma marca tendem a se tornar mais valiosos em um cenário saturado por soluções genéricas. O que o mercado pode perder em uma ponta, talvez consiga recuperar (e até ampliar) na outra.
Isso exige uma mudança de posicionamento. Designers precisam se aproximar de empresas que enxergam o design como um ativo estratégico e oferecer soluções que dificilmente poderiam ser substituídas por processos automatizados.
Isso não significa rejeitar as IAs. Pelo contrário. Saber incorporá-las ao processo de design também pode se tornar uma entrega valiosa. O diferencial deixa de ser apenas produzir um resultado e passa a ser orquestrar ferramentas, tomar decisões e construir soluções autênticas. A autoria, nesse contexto, torna-se um ativo de marca.
A questão também passa pela educação. Cada vez mais, designers precisarão ajudar clientes e públicos a compreender por que vale a pena investir em projetos autorais e profissionais.
O type design ainda parte de uma posição relativamente favorável. Diferentemente de muitas peças gráficas, uma fonte não é criada para um único uso: ela precisa funcionar como um sistema, capaz de responder de forma consistente a inúmeras aplicações ao longo do tempo. Embora existam usos descartáveis, as marcas mais relevantes esperam mais confiabilidade da tipografia.
As fontes continuam sendo um dos principais elementos da consistência de marca. E, pelo menos por enquanto, ainda é difícil que inteligências artificiais produzam sistemas tipográficos capazes de responder, com qualidade e consistência, à variedade de situações enfrentadas por uma marca.
Se elas chegarão a esse nível, ninguém sabe. Mas talvez essa nem seja a pergunta mais importante. O principal desafio é aproveitar esse tempo para reposicionar nossos serviços e compreender onde continuará existindo valor em um mercado cada vez mais automatizado.
Muito do que descrevemos aqui são movimentos que já estão em curso, e não necessariamente previsões futuristas. Algumas dessas mudanças nos parecem promissoras; outras, apenas consequências inevitáveis. De todo modo, vale a pena acompanhar essas tendências para entender não apenas como a tipografia se relaciona com as grandes transformações tecnológicas do nosso tempo, mas também como designers e foundries independentes podem se posicionar diante dos gigantes da indústria.
Valter Costa é pesquisador e designer. Ele dirige o conteúdo da Plau, sendo o responsável principal por todas as entregas que envolvam a produção de textos no estúdio. Se dedica especialmente ao Entrelinha, publicação de conteúdo da Plau, para o qual escreve semanalmente.