
Quanto mais avançamos no processo de digitalização do sistema financeiro, mais dinheiro e tipografia se misturam. É claro que essa relação sempre foi forte, mas vem sendo intensificada. Para muitas pessoas, inclusive, o dinheiro só existe na forma de tipografia.
Não acredita? Abra o aplicativo do seu banco agora e veja: ele é uma grande tela tipográfica. O caso é ainda mais extremo em bancos 100% digitais, para os quais o aplicativo é o banco, não apenas uma forma de acessá-lo. Até cores e formas costumam aparecer de maneira pontual nesses layouts, enquanto a tipografia domina as interfaces.
Pensa comigo: na Antiguidade, muitas transações aconteciam por trocas entre itens considerados igualmente valiosos. Ao mesmo tempo, certos bens passaram a funcionar como referência de valor, como o sal (de onde vem a palavra “salário”) ou o gado. Com o tempo, surgem moedas metálicas, cujo valor estava associado ao próprio material, como ouro, prata ou cobre. Mais adiante, aparecem moedas feitas de outros materiais e o papel-moeda, que representa um valor – inicialmente atrelado a um lastro – que pode ser usado no futuro.
Tipografia customizada para Avenue – Plau
Então, no final das contas, o dinheiro é, basicamente, uma promessa, uma abstração. Ele não tem um valor de uso intrínseco (como a comida), apenas um valor de troca. Quando o dinheiro se torna digital, ele vira uma promessa não só de que você poderá usar aquele valor no futuro, mas, antes disso, de que você tem aquele valor “em mãos” em primeiro lugar. Sem o material palpável, ele é uma abstração da abstração. Em resumo: não dá para esconder dinheiro digital debaixo do colchão. No máximo, dá para confiar que o banco vai proteger aquelas cifras que diz que você tem na conta.
“Confiança” é justamente a palavra-chave quando falamos em dinheiro. Mesmo com o dinheiro em papel, você precisa confiar que aquela cédula é capaz de comprar certas coisas, e a pessoa que te vende algo também precisa confiar que poderá fazer o mesmo depois, e assim por diante. Isso sem contar a confiança de que a cédula seja autêntica.
Mas o momento em que mais exercemos essa confiança é quando guardamos nosso dinheiro em algum lugar e acreditamos que ele vai permanecer lá (corrigido a juros mensais, de preferência!).
Bom, e se, hoje em dia, o dinheiro é tipografia, ela deve ter um papel importante na construção de confiança, certo? Sem dúvidas! A tipografia participa desse processo em diversas camadas e momentos diferentes, aliás.
Um projeto de design para um banco ou instituição financeira, de modo geral, precisa ser muito integrado para dar conta das centenas de pontos de contato que essas empresas têm com os clientes.
Uma forma fácil de enxergar essas diferentes camadas é a divisão entre marketing/comunicação e produto. Claro que, na prática, elas precisam andar juntas, mas também é possível pensá-las separadamente.
Tipografia customizada para Stone – Plau
Por exemplo, você pode escolher um banco para abrir conta a partir de inúmeros fatores: a marca, a forma como ele se comunica, as vantagens oferecidas, e assim por diante. Mas, uma vez que você já é cliente, passa a lidar menos com essa camada externa e mais com os detalhes do serviço.
Sabe a máxima que os especialistas financeiros repetem sobre “fazer o dinheiro trabalhar para você”? Então, para ajudar seu dinheiro a trabalhar por você, as fontes também entram em ação.
A primeira coisa que a tipografia para apps de bancos e corretoras precisa fazer é deixar tudo cristalino como água. Para isso, é necessário que os caracteres tenham o pacote completo da legibilidade: contraformas generosas, espaçamento arejado e, em muitos casos, tamanhos ópticos (ajustes para melhor leitura em cada tamanho), além de adaptações para que nenhum caractere possa ser confundido com outro.
Quando falamos de dinheiro, mal-entendidos são a última coisa que queremos. Especialmente porque, no cenário atual, precisamos considerar não apenas o uso cotidiano dos bancos, mas também possíveis ataques virtuais.
Hoje, um dos maiores aliados dos golpistas digitais em ataques de phishing e spoofing é a ambiguidade tipográfica. Para confundir usuários, eles se aproveitam de caracteres que, em fontes genéricas ou mal projetadas, são visualmente idênticos. Pense no clássico: um “I” (i maiúsculo), um “l” (L minúsculo) e o número “1”. Ou o “0” (zero) e a letra “O”. Em muitas fontes sem serifa padronizadas da web, esses caracteres são apenas hastes verticais idênticas ou círculos perfeitos. Imagine se alguém registra o domínio ltaú.com (com um “L” minúsculo disfarçado de “i”). Parece bobo quando analisamos com calma, mas, no dia a dia, muitas vezes seguimos no automático e essas coisas passam batidas.
Uma boa tipografia para o setor financeiro precisa ter um cuidado minucioso com a distinção de caracteres. O “l” minúsculo pode ganhar uma pequena cauda na base, por exemplo. O “I” maiúsculo, serifas. Ao zero, podemos acrescentar um corte diagonal, um ponto interno ou estreitar sua largura de forma clara. Pares problemáticos, como “rn”, precisam de kerning bem ajustado para não parecer um “m”. O cliente precisa bater o olho e ter certeza do que está lendo. Pense no caso do Pix, por exemplo: qualquer variação em uma chave pode levar o usuário a fazer uma transferência para uma conta desconhecida.
Veja como a curva na base “l” minúsculo o diferencia do “i”. Tipografia customizada desenvolvida pela Plau para a XP.
Outras confusões podem ser intencionalmente provocadas, como na abertura de letras como “a”, “e” e “c”, que, quando muito abertas ou muito fechadas, podem se aproximar de formas semelhantes.
Se você está pensando que um cliente médio de banco jamais notaria essas sutilezas, bom, sim e não ao mesmo tempo. É certo que praticamente ninguém vai observar profundamente essas miudezas tipográficas, mas isso não impede que um usuário comum perceba quando algo está errado.
Um app ou site falso provavelmente vai recorrer a uma fonte genérica. Nesse caso, um usuário familiarizado com os apps oficiais tem grandes chances de sentir um efeito de uncanny valley (vale da estranheza): pode não saber exatamente o que está errado, mas percebe que algo está fora do lugar. Essa pulguinha atrás da orelha às vezes é o suficiente para impedir um golpe.
Inclusive, esse é um grande ponto a favor das fontes customizadas para marcas. Em primeiro lugar, elas criam uma identificação exclusiva, tornando-se muito reconhecíveis para o público. Em segundo, são mais difíceis de piratear, já que, em tese, apenas funcionários da empresa têm acesso a elas. Ou seja, além de tudo, as fontes podem funcionar como um selo de autenticidade.
A segurança é vital para qualquer instituição financeira, mas não é só por isso que suas fontes precisam ser absolutamente legíveis. Nesse caso, a clareza é sinal de bom serviço, porque, se há uma área da vida em que queremos transparência a todo custo, é nas nossas finanças.
O alcance das fontes também é crucial. Para bancos e corretoras, o set de caracteres deve incluir não apenas os símbolos financeiros e matemáticos básicos (obviamente), mas também os de todas as moedas que fazem parte da carteira da instituição.
A Carbona, uma das nossas fontes de varejo, desenhada por Carlos Mignot, inclui o símbolo de diversas criptomoedas.
Uma fonte pode ter diversos conjuntos numéricos, mas o mais importante, quando falamos de finanças, são os numerais tabulares. Esses são os numerais que possuem a mesma largura entre si, o que faz com que fiquem perfeitamente alinhados em diferentes linhas de uma tabela, por exemplo. Note que, nesses casos, o número “1” costuma ganhar uma serifa, pois muitas vezes não conseguiria atingir a largura dos demais com seu desenho regular (como na própria Carbona, que ilustramos acima).
Os numerais tabulares facilitam a vida de quem lê os números, mas também de quem compõe apps e tabelas. Na leitura, eles são bem-vindos porque agilizam a busca por informações, já que o usuário sabe que casas numéricas equivalentes estarão sempre na mesma posição, mesmo em diferentes linhas.
Tipografia customizada desenvolvida pela Plau para a Warren, corretora de investimentos.
Já na composição, eles também são essenciais por darem previsibilidade ao layout. Se os números têm a mesma largura, as colunas também podem ser fixas, evitando surpresas desagradáveis e possíveis quebras de linha desnecessárias.
Mesmo a mudança de peso não altera a largura dos caracteres. Tipografia customizada desenvolvida pela Plau para a XP.
Esses “detalhes” deixam de ser detalhes quando pensamos que eles sustentam a experiência e são centrais não apenas para marcas, mas para o funcionamento de todo o sistema financeiro.
Mencionamos como esse tipo de projeto funciona, em linhas gerais, com duas camadas: produto e branding, que eventualmente se misturam. O produto é onde a funcionalidade reina e o usuário quer resolver seu dia sem interrupções. Existe branding no produto? Em cada pixel, sem dúvida. Mas é um espaço em que o cliente não quer pensar sobre isso nem sentir que está sendo conduzido por um caminho mais longo apenas para a marca comunicar seus valores.
Já nas instâncias próprias de branding, a marca pode parar para conversar abertamente com seu público. O interessante desse mercado é que todas carregam um atributo em comum: a segurança. É como se todas partissem do mesmo ponto, acrescentando suas particularidades ao longo do caminho.
Aqui, mais uma vez, a tipografia pode funcionar como fiel da balança. As marcas podem usá-la como síntese de diversos atributos ou como uma âncora de solidez – algo sempre relevante nesse mercado – enquanto outros elementos (cores, ilustrações) ganham mais liberdade. Nesse sentido, é como se as fontes fizessem o trabalho pesado para aliviar o restante da identidade.
Vamos ver alguns dos projetos que já desenvolvemos na Plau para marcas desse setor e como utilizamos a tipografia para trabalhar os desafios – técnicos e de comunicação – que comentamos aqui.
Famílias tipográficas desenvolvidas pela Plau para a Stone
Na marca da Stone, fintech brasileira cujo principal produto são as máquinas de cartão, a tipografia carrega muito do seu DNA. A empresa se orgulha de chegar aos quatro cantos do país, facilitando a vida de empreendedores. Por isso, buscou uma paleta tipográfica que dialoga com tradições do design brasileiro.
As letras são humanas, convidativas e têm uma estrutura caligráfica. Especialmente na versão serif, o esqueleto dos caracteres remete ao traço orgânico dos letreiros de comércios brasileiros. A diversidade do sistema, com quatro famílias tipográficas complementares, garante cobertura para diferentes usos, dos mais técnicos aos mais expressivos.
Esse caso revela algo interessante sobre o mercado como um todo: mesmo lidando com serviços financeiros, o público brasileiro responde bem a uma comunicação mais calorosa, que busca proximidade.
Famílias tipográficas desenvolvidas pela Plau.
Outro caso interessante é o da Avenue, plataforma de investimentos do grupo Itaú. O branding foi desenvolvido pela iN Marcas, e as fontes customizadas foram feitas aqui na Plau. Também trabalhamos com estilos diferentes nas tipografias Avenue, variando entre Display e Texto.
O principal insight do projeto foi tratar o desenho como se fosse de uma fonte serifada, mas aplicado a uma família sans serif. A estrutura das letras em alto contraste é uma característica típica das serifadas, mas conseguimos trazer esse traço, remover as serifas e ainda assim manter uma fonte que funciona muito bem tanto no branding quanto nas interfaces.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau
Família tipográfica e refinamento de logotipo por Plau
No projeto para a XP Investimentos, a familiaridade da tipografia era uma característica buscada pela marca. Ainda assim, foi possível incorporar traços marcantes que dialogam diretamente com o logotipo. Os ink traps surgiram a partir do próprio desenho do logo e foram incorporados como caracteres alternativos na tipografia, permitindo que a marca ative ou desative esse recurso conforme o nível de expressividade ou neutralidade desejado em cada peça.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau para a XP Investimentos
Logotipo por Polar e Plau
No projeto para o Inter, desenvolvido em parceria com a Polar, a tipografia surgiu como uma extensão direta do trabalho de marca, acompanhando um momento de expansão internacional da empresa. Fomos convidados a colaborar com alternativas para o logotipo, possíveis símbolos e o desenvolvimento de uma família tipográfica de títulos que dialogasse com a fonte de interface já existente.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau
A Citrina nasce a partir do próprio logotipo e combina uma base geométrica –ƒ inspirada em clássicos como a Futura – com detalhes art déco que trazem personalidade ao sistema. A presença do ampersand, central na identidade Inter & Co., também influenciou o desenho das letras. Com eixos variáveis de peso e tamanho ótico, a tipografia amplia as possibilidades expressivas da marca, reforçando seu posicionamento nessa nova fase mais global.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau para a B3
Em parceria com a Tátil, desenvolvemos para a B3 uma família tipográfica proprietária que equilibra geometria moderna com nuances sutis de brasilidade, estruturada em estilos Display e Text para garantir expressão e performance em diferentes contextos.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau para a Warren.
A família Warren (Display e Text) traduz um encontro entre tecnologia e proximidade humana. Com uma base orgânica combinada a elementos geométricos, as fontes trazem um tom acolhedor sem abrir mão da confiabilidade. Enquanto a versão Text prioriza clareza e eficiência em espaços compactos, a Display amplia a expressividade, formando um sistema tipográfico versátil que sustenta tanto o produto quanto a comunicação da marca.
Família tipográfica desenvolvida pela Plau.
No caso do BTG Pactual, o desafio tipográfico partiu de um contexto bastante exigente: um banco de investimento com atuação global, onde clareza, confiança e precisão são essenciais em cada ponto de contato. Em colaboração com as equipes de branding e UX, exploramos referências clássicas e contemporâneas para construir uma linguagem que fosse neutra o suficiente para o contexto financeiro, mas com personalidade própria.
O projeto exigiu um cuidado extremo com os detalhes, especialmente pensando em aplicações complexas em tamanhos reduzidos. Um dos pontos mais singulares do projeto foi a atenção dedicada ao peso Hairline, amplamente utilizado na comunicação da marca. O resultado é uma tipografia que respeita a sofisticação já presente nos produtos do BTG Pactual, ao mesmo tempo em que introduz ajustes sutis que elevam a consistência e o desempenho do sistema como um todo.
Veja que a tipografia tem tantas funções em marcas financeiras quanto os próprios serviços oferecidos por ela! Esse tipo de projeto costuma ser complexo justamente por ter que considerar várias camadas que uma mesma tipografia (ou, em alguns casos, uma mesma paleta tipográfica com diferentes famílias relacionadas) precisa acessar.
Por isso, fazemos questão de, sempre que possível, conversar não só com a equipe de branding da marca, mas também trazer insights dos desenvolvedores. Eles costumam ter um uso muito profundo da tipografia no dia a dia do produto e contribuem muito com a etapa de type design.
Ao mesmo tempo, temos que estar de olho no público, nos acionistas, no tom de voz da marca. Equilibrar esses pratos é o que solidifica a confiança, ponto de partida dos projetos financeiros, e, ao mesmo tempo, constrói o terreno para cada instituição comunicar seus diferenciais.
Valter Costa é pesquisador e designer. Ele dirige o conteúdo da Plau, sendo o responsável principal por todas as entregas que envolvam a produção de textos no estúdio. Se dedica especialmente ao Entrelinha, publicação de conteúdo da Plau, para o qual escreve semanalmente.