
No final de 2021, o Carlos Mignot, type designer e sócio da Plau, usando seu olho afiado para novidades no mercado de design, decidiu juntar uma lista de tendências tipográficas para branding que ele avaliou que estavam em alta naquele ano (ou que ele apostava que estariam bombando no ano seguinte).
Desde então, as Type Trends se tornaram uma tradição automática da Plau, com a diferença de que passaram a sair no início do ano, ao invés do final. A lista é aguardada por muita gente que nos segue, mas também por nós mesmos, como uma forma de ficarmos atentos às movimentações das marcas e dos nossos colegas designers.
Certamente, conhecer tendências é uma parte fundamental do nosso trabalho. Mas pesquisar ativamente, além de escrever sobre elas, nos faz ter uma navegação ainda melhor dentro do momento do nosso mercado. Na prática, a gente consegue avaliar melhor nosso próprio trabalho, decidindo quando queremos nos aproximar ou afastar de cada tendência.
Para a lista de 2025, resolvemos começar a produção mais cedo. Queremos aprofundar esse conteúdo, e experimentar novos formatos também. Ainda não sabemos exatamente como vai ser, mas o fato é que já estamos há meses colecionando referências que vemos como tendências já estabelecidas ou com potencial para isso.
Tal qual as tendências, a nossa lista pode mudar a qualquer momento. Ela nem está pronta ainda, mas já resolvemos abrir a conversa com você, leitor/a da Plau: queremos comentar sobre uma trend que está nos chamando atenção.
A tendência que vamos comentar a seguir chegou como um meteoro nos últimos meses, até o ponto em que nós mesmos começamos a experimentar com ela, ainda antes de reparar (de forma consciente, pelo menos) que ela estava na moda. Essa é uma questão interessante das tendências de design: parece que elas provam que o tal do zeitgeist realmente existe, em alguma medida.
Em algum momento, nosso olhar coletivo desperta para certo recurso visual e todo mundo começa a achar ele legal de uma hora para outra. Claro que não é assim que funciona, mas é a impressão que dá. Na prática, cada tendência funciona de um jeito. Algumas têm uma origem clara, outras surgem de forma difusa. Algumas são uma reação a uma outra tendência, outras não têm um “alvo” definido. Algumas refletem uma preocupação típica de algum momento histórico, enquanto outras são mais difíceis de racionalizar.
Tente pensar com a gente sobre as motivações por trás da trend que vamos comentar hoje!
Se você nunca tinha parado para pensar sobre a importância das contraformas na tipografia, ou seja, a forma interna das letras (a parte vazadas delas), a tendência do momento vai te mostrar como elas fazem toda a diferença.
Tudo indica que 2025 será o ano das contraformas circulares (ou contraformas “de bolinha”, como nós chamamos aqui na Plau) – se tiverem fôlego de chegar até lá, porque em 2024 já estão explodindo. Esse estilo brinca com as possibilidades do design geométrico. Enquanto a geometria é, geralmente, entendida como fria e neutra, esse estilo tem tudo, menos essas características.
Megazoid, desenhada por David Jonathan Ross
Veja o que diz David Jonathan Ross, type designer criador da Megazoid, uma das melhores representantes da contraforma de bolinha:
“De uma perspectiva conceitual, formas geométricas dão às letras um aspecto de beleza atemporal, transformando-as de símbolos feitos à mão em emblemas de ideais matemáticos. Mas de uma perspectiva prática, construir letras com círculos e quadrados é simplesmente muito, muito estranho”
Ele afirma isso, pois mesmo fontes que parecem geométricas costumam ter ajustes óticos para ficarem mais agradáveis aos olhos. Mas no caso da Megazoid e fontes similares, a estranheza é abraçada, ao invés de atenuada.
Ainda que estejamos falando de uma tendência na passagem de 2024 para 2025, nenhuma delas surge sem uma boa fundação por trás. Podemos entender essa fundação de dois jeitos: com uma lente um pouco mais fechada, olhamos para projetos de anos recentes que foram construindo essa tendência aos poucos até ela atingir o ápice atualmente. Mas também podemos investigar um passado mais distante para entender as bases do estilo. Vamos começar pelas tendências recentes.
O DiaTipo é o maior evento de tipografia do Brasil, e a edição de São Paulo em 2019 teve uma identidade visual visionária, já trazendo a contraforma de bolinha. O projeto foi desenvolvido pelo Estúdio Passeio em colaboração com Polar, Ltda., e essa identidade foi premiada com ouro no Latin American Design Awards.
O logotipo feito pelo Estúdio Passeio faz referência a um logotipo antigo da PBS, rede de televisão americana. Mostraremos essa inspiração na seção seguinte, onde vamos comentar sobre referências históricas para a tendência atual.
A Dinamo é, provavelmente, a type foundry (famosa fazedora de fontes) mais descolada do universo, com uma capacidade enorme de absorver e também de criar tendências. Em 2020, eles lançaram a Maxi, que apresenta a contraforma de bolinha em diversos “sabores” diferentes. A família conta com a Maxi Sharp e Maxi Round, que também têm equivalentes monoespaçadas (fontes cujas letras ocupam a mesma largura).
O curioso é que a própria Dinamo indica que essa família surgiu como uma estrutura suíça de letras, ou seja, bem clássica e neutra. Assim, as intervenções expressivas foram colocadas por cima de um esqueleto um tanto tradicional. Além da contraforma de bolinha, essas fontes são marcadas também pelo que eles chamam de “movimentos de espaguete”.
A Maxi acabou sendo usada, inclusive, para o próprio logo da Dinamo.
A Megazoid, que comentamos há pouco, pode nos dar uma boa dica de que há, de fato, uma tendência surgindo. Nós olhamos para os usos registrados dessa fonte no Fonts in Use, um dos melhores lugares para procurar referências tipográficas. A Megazoid foi lançada em agosto de 2021, mas dos 13 usos catalogados dela no site, 12 aconteceram entre 2023 e 2024.
Megazoid usada na série Sunny (Apple TV, 2024)
Parece que, dois anos após o lançamento, ela encontrou um cenário propício para chegar no gosto dos designers gráficos. E, se tivéssemos que apostar, a tendência é que ela siga tendo um bom momento.
Ozik, desenhada por Erik Marinovich pela Nuform Type
A Ozik é outra tipografia muito influente e que até usa expedientes parecidos com a da Megazoid, como o contraste bem marcado entre quadrados e círculos, mas, ao contrário da colega, ela não aposta tanto em um aspecto futurista, além de ter particularidades com o pingo do “i” achatado e uma brincadeira com as proporções das letras (por exemplo, “c” e “f” estreitos).
Assim como a Megazoid, a Baste consegue brincar com um aspecto sci-fi desse tipo de construção. E na sua versão “A”, a finalização circular ainda aparece em uma nova camada, já que ela tem todos os cantos arredondados – a Maxi, da Dinamo, também tem uma versão arredondada.
Esse estilo tem uma base clara nos anos 1970. Em alguns casos, ele transborda de retrofuturismo: de um lado, é sci-fi, do outro, é “funky”. A Ozik (da qual falamos na seção anterior), por exemplo, nasceu como uma homenagem ao lettering na capa do álbum Black Sabbath Vol. 4 (1972) – ok, aqui já estamos falando de metal, mas com um tanto de groove, não dá para negar!
Ainda podemos lembrar de outras fontes clássicas que trazem um look and feelparecido, como a Ginger Snap (1969), mais uma relíquia setentista.
Um clássico do design, o logo da PBS desenhado por Herb Lubalin em 1971, já informava basicamente tudo que está sendo resgatado agora em 2024.
E aí, te lembrou a identidade do DiaTipo SP 2019?
É claro que a contraforma é só um elemento da letra, e dá para fazer uma infinidade de coisas com ela. A Ginger Snap é um exemplo de estruturas triangulares, enquanto que a Ozik e Megazoid apostam no contraste entre círculos e quadrados.
De toda forma, por mais que a bolinha seja apenas uma característica, ela é bem marcante e já informa bastante coisa. Por exemplo, a maioria das fontes que usam esse expediente é bem pesada, embora isso não seja uma regra.
Provavelmente, nosso uso favorito da contraforma de bolinha em 2024 são esses letterings maravilhosos que o Leandro Assis fez para o novo álbum da Tássia Reis, “Topo da minha cabeça”. Aqui o Leandro encontrou o cálculo ideal para unir geometria com fluidez. Veja que a estrutura das letras não é tão distante da Megazoid ou Ozik, que comentamos lá em cima, mas aqui as retas não são tão marcadas.
O tamanho exagerado dos diacríticos (o pingo do “i”, a cedilha e o acento agudo) reforça a geometria e dá ainda mais peso para letras – que já são bem bold. Além de tudo, a composição é perfeita – a junção entre “i” e “b”, o “t” que é completado pelo “r” e o “a” que abre espaço para a descendente do “p” mostram bem a maestria desse layout.
Chupim (Baião Livros, 2024)
O novo livro de Itamar Vieira Junior (autor de Torto Arado), em colaboração com a artista plástica Manuela Navas e projeto gráfico de Giulia Fagundes e Thaíse Amorim, é um exemplo de como é possível usar as contraformas circulares mesmo em letras leves.
O lettering da capa também mostra como o aspecto divertido do estilo tem potencial para uso voltado ao público infantil. Mais uma vez, está provado que a contraforma de bolinha é mais versátil do que parece!
Brand New Conference 2024
Na Brand New Conference, a contraforma de bolinha se transformou em contraforma oval. Além disso, aqui as letras são cheias de pontas, como se fossem recortes de papel. Mas isso só acontece nas formas exteriores. Agora repare não apenas nas contraformas fechadas, mas em todos os espaços internos das letras. Eles são feitos com círculos e semicírculos, criando o contraste entre retas e curvas que dão um ar de desconforto a essa tipografia.
A Doss Collection, da Sharp Type é mais um lançamento de 2024 que traz nostalgia com a contraforma de bolinha.
Nós também não fugimos de tendências! Nesse projeto, em que colaboramos com a Polar, Ltda., a contraforma em círculo apareceu no ampersand do logotipo “Inter&Co” e na tipografia customizada que desenvolvemos para a marca.
No projeto, o mote do círculo teve um papel importante de reforçar o novo posicionamento de Inter como uma marca global, então a estratégia inspirou diretamente a tipografia.
Tendências são sempre uma faca de dois gumes, então se no seu próximo projeto você decidir experimentar com a contraforma de bolinha, pode ser que colha, ao mesmo tempo, as benesses e reveses dela. Seu cliente pode estar procurando por uma estética forte, nostálgica e divertida, e para isso você tem um recurso perfeito em mãos, nem que seja só para fazer uma experimentação.
Por outro lado, é importante levar em conta a possibilidade de que vários outros clientes e designers acabem chegando na mesma conclusão ao mesmo tempo, então pode ser que as bolinhas não sejam tão fortes no quesito diferenciação nos próximos tempos. Mas também não é só porque o Behance está cheio de contraformas de bolinha que todo o universo do design vai ficar saturada delas em breve. Se você acha que elas são a solução para o seu projeto, pode abraçá-las sem medo!