Ainda em clima de Copa do Mundo, mas já se despedindo dele, voltamos a falar de um tema inspirado pelo futebol. Aliás, vamos voltar para a Espanha, campeã mundial. Ou, mais especificamente, para a Catalunha.
Porém, hoje, o futebol vai ser apenas um de ponto de partida para falarmos sobre história do design.
Recentemente, a Nike e o FC Barcelona lançaram o uniforme da equipe para a temporada 2026/27, que começa em agosto. Nos círculos do design, porém, o que mais chamou atenção não foi a camisa em si (até um tanto ousada, com uma combinação de diversos tons de azul), mas a fonte criada especialmente para a temporada, inspirada na arquitetura de Antoni Gaudí (1852–1926). A tipografia foi desenvolvida pela foundry Statement Typefaces.
Trata-se de uma fonte serifada que dá destaque especial aos numerais. Neles, duas camadas de desenho se entrelaçam: uma pontilhada e outra listrada. Da arquitetura de Gaudí, ela incorpora as formas orgânicas, a sobreposição de elementos e a variedade de materiais, recriadas nas diferentes texturas dos caracteres.
Mas, além do desenho, o próprio nome da fonte pode despertar a curiosidade de alguns designers: FC Barcelona Modernista.
Serifas, formas orgânicas e ornamentos não são características que costumamos associar ao modernismo. Então por que chamá-la de “Modernista”? A resposta passa pelas diferentes histórias que essa palavra acumulou ao longo do tempo. É justamente essa trajetória que vamos explorar hoje.
“Modernismo”, nas artes e no design, é uma palavra coringa que pode significar várias coisas diferentes. Como resume o site do museu Victoria & Albert, “o Modernismo não foi concebido como um estilo, mas uma junção de ideias soltas”.
Poderíamos ir ainda mais longe. Talvez nem seja possível falar em “o modernismo”, mas apenas em modernismos, no plural. Diferentes épocas, lugares e expressões culturais entenderam a modernidade de maneiras distintas e adotaram essa mesma palavra para nomear projetos bastante diferentes entre si.
Quando pensamos em “modernismo” hoje, normalmente nos referimos aos movimentos que ganharam força a partir da década de 1920, no contexto do pós-Primeira Guerra Mundial. Basta lembrar da Bauhaus, em funcionamento entre 1919 e 1933, ou da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo.
No design, costuma-se chamar de modernismo o conjunto de movimentos que se desenvolve a partir da Bauhaus e se estende até a segunda metade do século XX. É claro que cada década e cada lugar apresentam características próprias, além de movimentos variantes e até dissidentes que surgiram ao longo do caminho. Ainda assim, algumas características gerais costumam ser associadas a esse período.
Entre elas estão um design frequentemente identificado como “minimalista”, com poucos elementos, layouts objetivos, muitas vezes baseados em geometria, tipografias sem serifas e com pouca ornamentação e o uso pontual de cores primárias.
É desse movimento que herdamos a máxima de que “a forma segue a função”. Embora a frase tenha sido formulada pelo arquiteto Louis Sullivan ainda no final do século XIX, foram principalmente os movimentos modernistas do século XX que levaram ela ao status de mantra no design.
Nessa perspectiva, a forma seria um atributo secundário dos produtos, servindo apenas para revelar suas funções da maneira mais clara possível. Daí a busca por um design com o mínimo possível de elementos.
O que era considerado “moderno”, nesse caso, era a integração entre design, indústria e as tecnologias de ponta da época, a produção em massa e a busca por soluções universais.
Porém, nem todos os modernismos seguiram essa cartilha.
Também existe modernismo antes da Primeira Guerra Mundial e fora do manual do minimalismo. É aqui que começamos a entender o novo uniforme do Barcelona FC. A fonte se chama Modernistaporque faz referência não ao modernismo racionalista que acabamos de comentar, mas ao Modernismo Catalão, um movimento que floresceu na Catalunha entre o fim do século XIX e o início do século XX e teve na arquitetura sua expressão mais conhecida.
O Modernismo Catalão, porém, não surgiu isolado. Ele é a manifestação catalã da Art Nouveau, movimento que ganhou notoriedade em Paris, mas que foi reinterpretado quase simultaneamente em diferentes países, assumindo características próprias em cada um deles.
A Art Nouveau marcou a passagem do século XIX para o XX e atuou como uma transição não apenas entre dois períodos históricos, mas também entre diferentes maneiras de pensar arte, cultura e design. O movimento preserva parte do espírito artesanal do Arts & Craftsinglês, mas já demonstra uma abertura muito maior à indústria e às novas tecnologias, tendência que se aprofundaria nas vanguardas das décadas seguintes.
Nesse sentido, a Art Nouveau é um movimento bastante peculiar. Sua linguagem visual é orgânica, ornamentada, vibrante e experimental, características que normalmente associamos ao trabalho artesanal. Ao mesmo tempo, sua circulação está ligada ao comércio, à publicidade, à produção gráfica e às tecnologias mais recentes da época.
Essa modernidade, porém, caminhava ao lado da valorização das identidades regionais. É justamente por isso que a Art Nouveauparece romper tão fortemente com o modernismo europeu e norte-americano do meio do século XX, cuja ambição era desenvolver uma linguagem cada vez mais universal.
Na arquitetura catalã, essa identidade aparece no uso da pedra, da cerâmica, dos mosaicos e das referências à paisagem e à natureza locais.
A obra de Antoni Gaudí, por sua vez, é diversa demais para caber em uma única categoria. Embora estivesse comprometido com uma arte nova e moderna, ele também incorporava influências de tradições muito anteriores, como a arquitetura gótica e a arquitetura clássica.
Vale lembrar que, embora a Catalunha faça parte da Espanha, possui uma identidade cultural bastante própria, inclusive uma língua própria. Ao longo de sua história moderna, também desenvolveu um forte movimento de afirmação cultural e política, que ainda hoje se manifesta em grupos que defendem a independência da região.
Assim, a valorização de uma arte catalã não se justificava apenas diante da Europa ou do restante do mundo, mas também em relação ao próprio Estado espanhol. Esse contexto ajuda a explicar por que a região desenvolveu uma vanguarda com identidade tão particular.
Não por acaso, o Modernismo Catalão costuma ser associado à Renaixença, movimento de valorização da língua, da cultura e da identidade catalãs que marcou o período.
Perceba como a própria ideia de modernidade muda de significado. Para o modernismo que se consolidaria mais tarde nos grandes centros europeus, ser moderno significava aproximar o design das capacidades da indústria, da produção em massa e de soluções destinadas a um público potencialmente global. É nesse contexto que o design passa a se aproximar cada vez mais da engenharia e das ciências.
Já na Art Nouveau e no Modernismo Catalão, a modernidade significava outra coisa. Havia, sim, uma abertura ao comércio, à indústria e às transformações trazidas pelo novo século. Mas esses artistas e designers não pretendiam eliminar as características locais de sua produção em busca de uma linguagem universal. A aproximação não acontecia entre design e indústria, mas entre tradição artesanal, identidade regional e cultura de mercado.
O Modernismo Catalão não viveu apenas da arquitetura, embora ela seja sua expressão mais conhecida. Assim como no restante da Art Nouveau, esse foi um momento em que muitos artistas passaram a atuar também na criação de cartazes, anúncios, capas de livros e outras peças gráficas, levando sua linguagem para além das galerias e aproximando-a do design e da publicidade.
Essa integração aparece de forma evidente na maneira como pintura, ilustração, ornamentação e composição tipográfica praticamente se fundem em uma única linguagem visual.
Alexandre de Riquer (1856-1920) é um dos principais nomes desse movimento. Neste cartaz, diferentes elementos convivem em uma única composição: o fundo floral, as figuras humanas que avançam sobre a área tipográfica, o brasão da cidade de Barcelona inserido em uma moldura ornamentada e os diferentes blocos de texto distribuídos pela imagem.
Cada nível de informação recebe um tratamento próprio. O título é desenhado em um estilo de inspiração gótica, os subtítulos utilizam uma serifada em caixa alta e o restante das informações aparece em letras sem serifas, mas ainda bastante ornamentadas. Apesar dessa variedade, o conjunto mantém uma identidade visual consistente. Um detalhe interessante é o desenho da perna da letra “R”, que reaparece em diferentes palavras como um elemento de ligação entre os diversos letterings.
Cartaz para o Orfeó Català, desenhado por Adrià Gual (1872-1943). Aqui, as letras deixam de ocupar um espaço separado e passam a fazer parte da própria ilustração. A tipografia se integra às fitas, aos ornamentos e às formas do desenho, enquanto cada palavra recebe uma solução diferente, preservando, ainda assim, uma notável unidade visual. As cores reforçam essa integração, já que cada palavra retoma a paleta de algum outro elemento da composição. A própria ordem de leitura também é cuidadosamente construída. Mesmo aparecendo em segundo plano, nosso olhar encontra primeiro “Orfeó”, depois “Català” e, por fim, “Barcelona”.
O que dá para concluir desse papo todo é que “moderno” é um atributo que não significa muito fora de contexto. Modernismo é um conceito aberto que pode receber muitos significados diferentes, às vezes até opostos. Afinal, cada modernismo não apenas produziu uma estética diferente, mas também uma ideia diferente do que significava ser moderno.
O mais interessante disso não é ficar só na comparação estética entre diferentes movimentos, mas entender por que essas diferenças existem em primeiro lugar. Quais ideias, interesses e circunstâncias são colocados em jogo em cada uso desses termos que usamos de forma corriqueira.
E por fim, só nos resta torcer para que essa nova fonte modernista traga sorte ao Barcelona na próxima temporada.
Valter Costa é pesquisador e designer. Ele dirige o conteúdo da Plau, sendo o responsável principal por todas as entregas que envolvam a produção de textos no estúdio. Se dedica especialmente ao Entrelinha, publicação de conteúdo da Plau, para o qual escreve semanalmente.