Valter Costa

Se você acompanha o Entrelinha, sabe que o cinema é um dos nossos assuntos favoritos. Existem alguns motivos para isso. O primeiro, claro, é que se trata de um interesse nosso. Simples assim.
Mas mais importante mesmo é o segundo: o cinema não é só um hobby qualquer, mas um ambiente onde a tipografia passa por todo tipo de desafio e cumpre todo tipo de função. É como um grande laboratório tipográfico. Nesse laboratório, conseguimos aprender muito sobre letras.
No dia a dia, é fácil focar muito nas escolhas técnicas e estratégicas que temos que fazer em relação às fontes, especialmente no ambiente de branding. Mas quando olhamos para fora — nesse caso, para o cinema —, lembramos do potencial narrativo delas, de como as fontes são muito boas para contar histórias.
Quando fazemos esse deslocamento, conseguimos voltar para o nosso trabalho de designer com uma sensibilidade renovada, além de um repertório ampliado.
Gostamos tanto do tema que criamos um workshop especial só para falar disso, mas a gente conversa sobre isso mais tarde.
Agora, com o Oscar perto de acontecer, queremos comentar o que os filmes indicados trouxeram de mais interessante no campo da tipografia.
E se alguém acha que o Oscar não tem nada a ver com tipografia, lembramos que a história do Oscar foi marcada negativamente por uma composição tipográfica ruim! A cartela mal desenhada, com indicação pouco clara da categoria em questão, criou uma confusão e um constrangimento inesquecíveis em 2017.
Nossa cobertura começou antes mesmo de conhecermos os indicados, porque, meses atrás, já tínhamos publicado um texto sobre Pecadores (2025), que acabou não apenas sendo indicado às principais categorias, mas batendo o recorde da história da premiação, com 16 indicações.
Relembre esse post:
Para quem quer mergulhar no tema da tipografia no cinema, a melhor pedida costuma ser filmes de época. Essas obras investem boa parte dos seus esforços para ambientar o espectador, mostrar em que momento a história acontece, e uma das melhores ferramentas para isso é justamente a tipografia. Por isso, costumam ser mais recheados de materiais gráficos.
Sem contar que, dependendo da época retratada, de fato teríamos mais documentos impressos, mais letreiros pintados, maior diversidade tipográfica, com várias fontes diferentes ocupando um mesmo layout sem tanta preocupação de “consistência”, por exemplo, e assim por diante.
Não à toa, três dos quatro filmes do Oscar que vamos comentar são de época. Um deles é o Pecadores, que você pode conferir no post próprio, linkado acima. E o restante vamos ver a partir de agora.
Marty Supreme (dirigido por Josh Safdie) é vagamente baseado na história real de Marty Reisman, mesa-tenista americano do século passado. Não só o personagem histórico é americano, mas a ideia do filme é contar uma história tipicamente americana: o self-made man (o mito do talento e sucesso individuais) que é tão ambicioso que chega a se autossabotar, apesar do seu nível de excelência.
Não é muito diferente, por exemplo, da história contada em O Lobo de Wall Street(Martin Scorsese, 2013), se você reparar.
Essa ideia é transmitida de forma brilhante usando tipografia. O título do filme, no seu início, é apresentado dentro de uma bolinha de tênis de mesa: “Marty Supreme — Made in America”. A frase “feito na América” brinca com o produto (a bolinha) ser produzida nos EUA, mas também o próprio Marty Supreme ser construído a partir de valores americanos (além de ele próprio ser também um produto).
E o filme como um todo tem um trabalho tipográfico muito bom para além desse início. Vemos fontes em jornais, cartazes de competições de tênis de mesa e materiais gráficos nos diferentes países onde o Marty joga, marcando bem as diferenças de cenário ao longo do filme. A tipografia aparece não só nos objetos de cena usados pelos personagens, mas também sobre a tela, sinalizando os diferentes momentos da história. O filme se passa na década de 1950, embora isso não esteja indicado explicitamente.
“Marty Supreme ⭐⭐⭐Feito na América” — Solução gráfica excelente que resume o filme inteiro em um quadro.
Ao longo de todo o filme vemos muitos números, por conta dos placares dos jogos, mas o primeiro número que aparece em tela é o tamanho de um sapato. Marty é vendedor de sapatos, o que já indica muito do que o filme quer passar com o personagem: ele sai de baixo para conquistar o mundo.
Marty cercado pelos logotipos e embalagens dos sapatos que vende.
Para a foto oficial de um torneio internacional, os competidores seguram uma raquete com o nome dos seus respectivos países. Marty Mauser é o único americano, reforçando uma ideia de “EUA contra o mundo”.
Jornal que Marty Mauser usa para mostrar ao seu par romântico que ele é “o escolhido”, como diz a manchete.
Marty chega a viajar o mundo com o Harlem Globetrotters para pagar as contas. Em Atenas, vemos cartazes no alfabeto grego ao redor da quadra, além da indicação da cidade sobre a tela em uma fonte sans, bold estendida e entreletra bem aberto, ocupando um grande espaço da composição.
Uma profusão de cartazes em japonês indicam o destino da última viagem de Marty Supreme no filme. Alguns slogans em inglês mostram o patrocinador americano do evento: a marca fictícia Rockwell Ink.
Nós fizemos um post completo sobre O Agente Secreto no Instagram da Plau — post esse que foi curtido pelo próprio diretor Kleber Mendonça Filho, diga-se de passagem! (não vamos cansar de falar isso). Mas vamos relembrar o tema aqui, afinal, ele merece.
Estamos com moral, a verdade é essa 😎
Assim como Marty Supreme, O Agente Secreto é cheio de materiais gráficos para notarmos. O que acontece de mais interessante nele, nesse sentido, é que os jornais têm uma participação central na trama. É possível contar a história toda do filme a partir dos jornais. Os personagens os leem, manuseiam, observam eles nas bancas de jornal, se aglomeram em filas para conseguirem a primeira edição do dia.
Enquanto a história se desenrola a partir das ações dos personagens, de outro lado ela é contada pelos impressos. Por vezes, eles podem até contradizer as falas desses mesmos personagens.
A inserção tipográfica do início indica o momento e o clima da história que vai ser contada.
Um corpo é velado com a notícia de outros 91 mortos, um resumo da violência que o filme retrata.
O momento histórico também é muito bem retratado tipograficamente a partir de documentos oficiais.
Muita gente foi pega de surpresa com a indicação de F1: O filme à categoria de Melhor Filme. Mas ninguém discordaria da presença dele em categorias técnicas, pois, apesar de ser clássico filme “pipoca” feito exclusivamente para o entretenimento e sem grandes ambições de profundidade, ele é muito bem feito. F1: O Filme tem direção de Joseph Kosinski e, não menos importante, trilha sonora original de Hans Zimmer, uma lenda da música para cinema.
Não poderíamos esperar menos de um filme feito com a participação oficial da marca da Formula 1, com a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e produção da Apple.
É um filme bem curioso, porque é muito realista e muito delirante ao mesmo tempo.
Algumas das decisões do roteiro são bem absurdas (além de outras que são muito clichês), mas a ambientação inteira é extremamente bem construída. O protótipo de uma nova câmera de filmagem chegou a ser desenvolvido pela Sony especificamente para o filme, com o objetivo de capturar melhor as cenas em velocidade.
Mas a parte gráfica é tão importante quanto a fotografia e o som para criar a sensação de realismo no filme. O filme usa a tipografia oficial da Formula 1, equipes e patrocinadores reais, gráficos realistas de performance e materiais de imprensa.
Muitas vezes, a sensação é de estarmos assistindo a uma corrida de domingo na televisão. Inclusive, muitos pilotos reais de F1 aparecem no filme.
Só a equipe da qual os protagonistas participam foi criada para o filme, mas foi tão bem feita que parece que sempre esteve lá.
A Apex GP é a equipe que acompanhamos no filme.
Por planos como esse, é impossível dizermos se estamos assistindo a um filme de ficção ou uma corrida na TV.
Quase tudo no filme parece bem realista, mas o Brad Pitt com mais de 60 anos competindo em alta performance já fica um pouco mais difícil de acreditar.
Nomes reais, logotipos reais e a fonte oficial da F1.
O backdrop com os patrocinadores oficiais e o enquadramento na perspectiva dos jornalistas faz parecer que estamos realmente assistindo a uma coletiva de imprensa verdadeira.
Fãs de Formula 1 definitivamente se sentem em casa com esse filme.
Valter Costa