Valter Costa

Este texto é a Parte 2 de “Art Déco contra o submundo”, cuja Parte 1 foi publicada aqui. Na primeira parte, olhamos para o universo estético e arquitetônico de Gotham City em duas séries do Batman: A Série Animada (1992) e Batman: Cruzado Encapuzado (2024), que compartilham a referência Art Déco. Agora vamos mergulhar nas letras que aparecem nessas representações da cidade.
As duas partes podem ser lidas de forma independente, então não se preocupe se começar por aqui. Mas depois lembre de voltar na Parte 1 para entender o conceito por trás das escolhas tipográficas que vamos comentar agora!
Na Parte 1, falamos muito d'A Série Animada, de 1992, porque ela criou toda a base conceitual, mas também vamos ver como as fontes aparecem na sua série “filha”, Batman: Cruzado Encapuzado, de 2024. A referência Déco aparece bastante nas letras também, embora nem sempre de maneira tão óbvia. Outra coisa interessante a notar é que na série de 1992 as letras são mais cartunescas, enquanto na de 2024 elas são mais “tipográficas”.
A primeira coisa que precisamos reparar (e louvar!) sobre a série de 92 é que ela criou uma cartela de abertura diferente para cada episódio, com fontes e layouts que seguem o tema do episódio. Amplie a imagem abaixo para saborear cada uma delas (78 no total).
Vamos olhar no detalhe as cartelas que pegam de maneira mais literal a referência Art Déco:
Se alguém quiser saber o que é o Art Déco na tipografia, esses seis títulos provavelmente já dão o melhor resumo possível. Você certamente já consegue encontrar alguns padrões só de bater o olho.
As fontes Art Déco geralmente têm um exagero no contraste entre letras circulares e letras quadradas. Veja como a letra “O”, perfeitamente circular, se destaca em alguns desses layouts, enquanto, do outro lado, algumas letras são bem estreitas, como “H”, “T” e “N”. Outra característica marcante é o eixo das letras descolado, para cima ou para baixo.
No “B” de Shadow of the Bat ou Batgirl Returns, por exemplo, o corte é muito no alto da letra, de forma que a parte de baixo é muito maior que a de cima. Já no “P” e “R” em Prophecy of Doom, é o oposto. O corte é muito baixo, então o bojo da letra é bem alongado e circular. Veja se consegue identificar essa característica em outras letras também.
Mais um ponto importante é que, muitas vezes, essas letras têm barras que ultrapassam as hastes, o que também bastante Art Déco. Veja as letras “H", “A", “F” e “E” nos letterings de Shadow of the Bat, Heart of Ice, Prophecy of Doom e Zatanna. Além do corte alto, os traços horizontais vão além da estrutura da letra.
Agora vamos ver alguns exemplos de letras “diegéticas”, ou seja, que estão de fato dentro da história, na realidade dos personagens.
Se você for assistir a série (atualmente disponível no streaming Max, inclusive), a primeira letra que vai ver é de um letreiro que aparece nos primeiros segundos da abertura. Ela não é lá muito refinada, mas tem um detalhe interessante.
À primeira vista, parecem letras genéricas, certo? Mas, se você conseguir sobreviver a esse kerning de "BA N K", preste atenção no “K", especialmente os espaços vazios da letra. Normalmente, esperamos que um “K” tenha as três contraformas mais ou menos equilibradas. Mas, nesse caso, a porção superior da letra é muito maior do que a porção inferior. A parte de cima praticamente esmaga a parte de baixo.
Pode ter sido apenas uma idiossincrasia do desenhista que fez isso? Pode. Mas isso também é uma característica Art Déco, mesmo que esteja aparecendo em um lettering sem serifas e sem grandes floreios. É como a questão do eixo deslocado que vimos com as cartelas de abertura.
Mais alguns exemplos de uso de letras nos episódios:
Esse hospital não parece muito convidativo, mas não dá para negar que tem um logotipo marcante. Mais uma vez, o elemento das barras que ultrapassam o limite das hastes.
Olha o "A” característico aqui novamente. Dessa vez, para uma causa nobre: um leilão beneficente pelo direito dos animais. E o que está sendo leiloado? Um date com o Bruce Wayne. Spoiler: a Mulher-Gato levou essa.
Caramba, outro evento beneficente. Só deve ter gente generosa nessa cidade! Esse é um exemplo interessante do “charme” Déco. Veja como o contraste das letras é bem vertical: os traços verticais são pesados e interrompidos abruptamente, sem nenhuma transição para os traços horizontais e bem finos.
O "Hall das Invenções" também abusa de letrinhas estreitas e elegantes.
A sinuca do Fat Paulie traz novamente a questão do contraste reto, e ainda de um jeito curioso, porque, em algumas letras, o peso fica só no lado esquerdo da letra, como no “O” e “H”.
Quem disse que não teria fonte gótica n’A Série Animada? O Gotham Times não aderiu à moda Art Déco.
A nova série do Batman no Prime Video parte basicamente da mesma ideia d’A Série Animada: uma ambientação “Dark Déco” no anos 1940, mas cheia de tecnologia. Na abertura e nos créditos, essa referência é deixada ainda mais óbvia do que na série anterior, pois uma fonte Art Déco aparece a todo momento (quando n’A Série Animada, apenas alguns episódios tinham esse recurso na abertura, como vimos antes).
Letras pontudas, contraste de largura e eixos deslocados: já sabe do que estamos falando, não é? Essa abertura também reforça o caráter noir na narrativa, embora ela tenha um traço diferente dos próprios episódios, sendo granulada e inteiramente em preto e branco.
O Gotham Diner entrega tudo: basicamente todas as características Déco que comentamos até agora agora estão aqui. E lembra da sinuca do Fat Paulie? Aqui vemos novamente o peso assimétrico nas letras que estão no toldo do diner.
Isso aqui é o puro ouro para o nerd tipográfico: letras usadas como recurso narrativo. Em um momento dramático da personagem, a composição da cena reforça a posição de indefesa dela, de um lado, perto da grandeza da cidade e, do outro, da imponência do letreiro – além do contraste entre a tristeza dela e o fato de estar ao lado de um clube de jazz brilhante.
Sobre o desenho das letras, aqui temos um bom exemplo de como o eixo dela pode ser deslocado tanto para cima, quanto para baixo. Ja vimos ocasiões em que o eixo sobre muito, agora veja essa letra “E”: o traço médio dela está quase encostando na linha-base.
Letreiros verticais com neon: amamos.
Pode fechar tudo: encontramos o melhor uso de tipografia na história da animação! Não tem muito de Art Déco aqui, e não é nem que o desenho da fonte esteja fora de série, mas a composição da cena, com a grandeza do letreiro iluminado, está basicamente perfeita.
Aqui o contraste vertical chegou na sua forma final: os traços finos são o que chamamos de “hairline”, ou seja, com o mínimo possível de espessura.
A campanha do Harvey Dent (o Duas-Caras) para a prefeitura aparentemente tem bons designers e um logo variável!
A série Cruzado Encapuzado faz algumas mudanças no cânone do Batman: uma delas é que o vilão O Pinguim se tornou A Pinguim, uma personagem mulher. Ela tem basicamente um cruzeiro de maldades, onde controla a máfia da cidade, e ele tem um letreiro bem chamativo. O ângulo não está dos melhores, mas se você notar bem, esse logo usa um recurso de tem praticamente duas hastes, uma pesada e uma leve, o que é um recurso Art Déco que traz uma camada a mais de elegância.
O letreiro do Asilo Arkham (o hospital psiquiátrico onde ficam internados boa parte dos vilões do Batman) exagera o elemento da barra alongada e ainda inclui algumas formas orgânicas, como no “K” e no “M”.
Bom, como nem tudo são flores, depois da nossa longa incursão no universo do Batman, infelizmente temos que encerrar com uma nota triste: sim, o jornal de Gotham City usa texto de Lorem Ipsum.
Torçamos para o Batman enjaular o responsável por isso na segunda temporada de Cruzado Encapuzado – que, aliás, já está em produção.
Valter Costa