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Uma publicação da Plau
  • Design, Estudo de caso
  • 18 de set. de 2024

Art Déco contra o submundo

Parte 1 – Design, arquitetura e tipografia nas séries animadas do Batman

Batman: A Série Animada (1992) e Batman: Cruzado Encapuzado (2024) são duas animações de TV dentro do universo já muito conhecido do Cavaleiro das Trevas da DC Comics. Além de compartilharem o sucesso de crítica, elas dividem também alguns conceitos narrativos e estéticos que diferenciam elas de outras produções sobre o personagem. Neste texto de duas partes, vamos olhar em detalhe para a forma como os criadores pensaram o design da cidade de Gotham nessas séries. 

Mesmo quem não é muito afeito a histórias de super heróis (ou histórias de "hominho", como elas também são não-muito-carinhosamente conhecidas) deve ter uma imagem clara de quem é o Batman e em que tipo de mundo ele vive. Quem já teve qualquer contato com o personagem da DC Comics provavelmente não vai ter dificuldade em lembrar que as histórias dele costumam ter uma ambientação sombria, escura, soturna. Desde o primeiro gibi solo da história do Batman, escrito por Bill Finger e desenhado por Bob Kane, Jerry Robinson e George Roussos em 1940, ele já era chamado de "cavaleiro das trevas". Ou seja, o homem-morcego já carrega nas costas um “branding” de mais de 80 anos de vida, e que é, de maneira geral, bem consistente.

Batman #1 (1940)

Em qualquer conversa sobre o ambiente em que vive o cruzado encapuzado também não deve demorar para surgir o termo "gótico". Afinal, ele vive em Gotham, que vem de "gótico", certo? Mais ou menos. A cidade do Batman foi inspirada em Nova Iorque, que tem "Gotham" como um dos seus apelidos, sem relação nenhuma com o estilo gótico. De todo jeito, a coincidência é bem-vinda, porque a referência do gótico é, de fato, importante para o universo do Batman.

Especialmente nos filmes, é possível ver como a arquitetura de Gotham usa muito de construções góticas e neogóticas. Recomendo esse vídeo do Architectural Digest em que o arquiteto Michael Wyetzner analisa todas as versões live action da Mansão Wayne já feitas para cinema e televisão. 

Mas além de história em quadrinhos e produções audiovisuais live action, o universo Batman também tem uma tradição com produções animadas, e é sobre algumas delas que vamos falar. "Batman: A Série Animada" (Batman: The Animated Series), transmitida de 1992 a 1995, é um clássico das adaptações de quadrinhos e, inclusive, muita gente a considera como a melhor adaptação do Batman para TV ou cinema. 

Não só a qualidade da animação e do roteiro marcou a história do personagem, mas essa série também foi capaz de trazer conceitos novos para ele, o que é sempre difícil quando falamos de um universo ficcional com décadas de existência e milhares de diferentes versões. Foi nessa série, por exemplo, que foi criada a personagem da Arlequina, que hoje em dia é um dos rostos principais do universo cinematográfico da DC Studios e até filme live action individual já ganhou, sendo interpretada por Margot Robbie. 

A Série Animada é tão influente que continua sendo referência para produções atuais. Em agosto de 2024 estreou no Prime Video a série "Batman: Cruzado Encapuzado" (Batman: Caped Crusader), uma animação de 10 episódios. Cruzado Encapuzado não é uma sequência, nem um remake da série de 1992, mas é como se fosse uma herdeira dela. Elas compartilham um certo espírito único, e não é à toa que isso aconteça. O diretor da série de 2024 é Bruce Timm, também cocriador e diretor d'A Série Animada.

E não foi só a Arlequina que, na época, os criadores trouxeram de inovação. No cenário da televisão como um todo, Batman: A Série Animada também foi um ponto fora da curva. Na época, as produtoras estavam começando a conseguir escapar de algumas restrições legais rígidas que controlavam a produção voltada ao público infantil nos EUA. Nos anos anteriores, o cenário televisivo era dominado por produções como Tiny Toon Adventures, ou seja, desenhos coloridos, alegres e sem violência. A Série Animada foi a primeira a conseguir colocar na TV americana um produto infantil que era sombrio, cheio de porradaria e arma de fogo. Ela é, basicamente, um noir detetivesco, só que de super-herói.

Já em relação ao próprio Batman, ela não é a primeira produção audiovisual a ter essa ambientação. Pelo contrário, a série tomou muito como referência o trabalho de Tim Burton no filme Batman, de 1989. 

Esse contexto já esclarece bastante coisa, mas o que realmente interessa para nós aqui é o conceito visual da série. Bruce Timm e Eric Radomski, o outro criador d'A Série Animada, criaram o nome de "Dark Déco" para o universo estético que desenharam na série, ou seja, um Art Déco sombrio. A escolha por si só já é interessante, porque não é nada óbvia. É muito mais fácil ambientar o Batman em um universo gótico, já que nele os elementos visuais reforçam diretamente os elementos narrativos. Já com o Déco a conexão não é tão direta.

Prédios com arquitetura Art Déco em Batman: A Série Animada

Esse estilo tem origem na Europa nas primeiras décadas do século XX, e é mais ou menos uma mistura de uma arte tecnológica e sofisticada ao mesmo tempo, funcionando como prenúncio de um novo mundo que surgia naquele momento. O estilo é, de maneira geral, marcado por linhas geométricas, verticalidade, traços espraiados e elementos metálicos e dourados. A ideia de elegância e "modernidade" do Art Déco são quase o oposto da lógica do gótico, um estilo muito carregado. 

A parte "dark" do Dark Déco do Batman é, obviamente, a essência do personagem. A solução que o Eric Radomski encontrou para criar os cenários foi desenhar os frames já em papel preto. Ou seja, as sombras não são acrescentadas ao desenho. Elas são o desenho, os pontos de luz é que são acrescentados nele. Esse recurso é perfeito para expressar a ideia de um Batman que é parte das sombras, é onde ele vive.

Frame da série desenhado em papel preto

Os criadores desenvolveram esse conceito de ambientação da série pensando que, como o Batman é um personagem dos anos 1940, é como se ele vivesse em um mundo que nunca saiu dessa época. O Art Déco é mais característico das décadas de 1920 e 1930, mas chega a encostar nos anos 1940 também. Segundo os produtores, é como se o Batman vivesse eternamente dentro da New York World's Fair, de 1939 e 1940, uma feira de arte, design, tecnologia e indústria com o tema "O mundo de amanhã", exibindo aquilo que os países participantes consideravam que estavam produzindo de mais avançado no momento.

O curioso no caso de Batman: A Série Animada é que os avanços tecnológicos não param nos anos 40. Então todas as traquitanas e "bat-coisas" do Batman são tão avançadas quanto poderiam ser nos anos 1990, mas ambientadas em um universo construído 50 anos antes. Essa mistura entre arquitetura e design de uma época e possibilidades tecnológicas de outra é certamente um dos aspectos mais divertidos da série, e não dá para olhar para ele como uma espécie de anacronismo. Todos os elementos têm uma coesão interna no mundo particular dessa Gotham City.

Mesmo nos anos 1940, o Batman já era todo paramentado.

Então podemos recapitular o que vimos até agora desse jeito: como estilo arquitetônico e design, o Art Déco, à primeira vista, parece não ter nada a ver com o Batman, mais ligado ao gótico, mas os criadores acharam na origem do personagem nos quadrinhos a conexão perfeita com essa estética, ainda acrescentando o tom "dark" nela. Mas ainda existem mais elementos que fazem essa conexão interessante, um tópico visual e um conceitual. 

A parte visual é que, se você lembra bem, já vimos que o Art Déco baseia-se muito em formas geométricas. Em grande parte, arcos, triângulos e pontas. E o que mais é orientado por triângulos e pontas? Isso mesmo que você pensou: o Batman. As orelhas, o símbolo, o batmóvel, os batarangues (os morceguinhos metálicos que ele atira aos desafetos) e detalhes do uniforme, todos esses são elementos afiados que são essenciais para a construção do personagem. N'A Série Animada, o Bruce Wayne (e, por consequência o Batman) tem o rosto quadrado e, sim, pontudo. Até a anti-heroína da série, a Mulher-Gato – que, inclusive, é tema dos dois primeiros episódios – é pontuda. Já deu para entender onde estamos chegando, certo? O Batman é parte do cenário. Ele mesmo é o Dark Déco por excelência.

Veja as bat-pontas

Isso já introduz o ponto conceitual que ficou faltando. Por que uma ambientação feita em um estilo associado a luxo funciona aqui? O Bruce Wayne é um aristocrata de Gotham City. Ele é um super rico que, muitas vezes, está lutando contra outros personagens da elite da cidade. E mesmo quando não é o caso de vilões vindos da elite, ele está sempre lutando contra a vocação aparentemente incontornável da cidade para a corrupção, para o crime, para a loucura. Então o Batman representa uma luta endógena: Gotham contra ela mesma. Ou seja, ele faz parte do cenário também nesse sentido. O Batman não é um outsider, ele é a própria cidade, e faz todo sentido vermos ela pela ótica dessa sofisticação sombria.

O batmóvel alongado também reflete a arquitetura dessa Gotham.

Fontes utilizadas nessa página
  • Vinila Regular
  • Guanabara Display Condensed
  • Dupincel S Regular
  • Odisseia Regular